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Expresso

A Tempo e a Desmodo

Acabem com as claques

No domingo, o enésimo confronto entre claques causou comoção e espanto. Não percebo porquê. A sociedade e a polícia legitimam há anos o vandalismo das claques.  Não o controlam, não o punem, legitimam-no. E a legitimação começa num termo engraçado, "caixa de segurança". É este o eufemismo que esconde uma cena absurda que se repete época após época: quatro, cinco, seis, dez mil gandulos juntam-se num sítio e depois são escoltados pela polícia até ao estádio do rival na tal "caixa de segurança". Neste percurso legitimado e protegido pela polícia, a "caixa de segurança" funciona como um arrastão, lojas têm de ser fechadas, ruas têm de ser fechadas. Ou seja, o estado de direito, representado pela polícia, não protege o cidadão das acções dos bárbaros. Faz o inverso: põe em causa a normalidade do cidadão para permitir a passagem de um pequeno furacão de candidatos a gangsters. Eis, portanto, o absurdo: a polícia é babysitter de gente que devia estar a prender. Sim, o lugar de boa parte daqueles charrados profissionais não é o estádio, é o chilindró. 

Mas o absurdo da "caixa de segurança" não acaba aqui. Lá dentro, não existe lei. Ou melhor, existe a lei dos pequenos mafiosos que controlam a turba. Nas barbas da polícia, que só controla o cordão exterior da "caixa de segurança", aqueles índios caminham com armas, droga e petardos. Pior: eu sou revistado à entrada do estádio, mesmo quando levo uma criança pela mão, mas ninguém revista as claques. A impunidade é total. É como se a claque de futebol fosse uma licença para o banditismo. E a impunidade chega ao limite quando vemos esta gente a agredir polícias com um sorriso nos lábios. Porque é que sorriem? Porque sabem que não sofrerão grandes consequências. O índio da claque sabe que está protegido pela confusão, sabe que as suas acções individuais são diluídas pela onda colectiva. Resultado? Na TV e ao vivo, já vi claques a humilhar polícias sem qualquer tipo de consequência posterior. Porque é que isto acontece? Como é que podemos ser tão tolerantes com gente que actua objectivamente fora da lei? E existe ainda outro acorde desta sinfonia de impunidade: em Portugal, apenas treze indivíduos estão legalmente impedidos de entrar em estádios. Treze. Parece piada, não é? Mas a piada maior é outra: a polícia não tem meios para os controlar. Porquê? Provavelmente porque está a fazer "caixas de segurança" para os outros 10 mil índios. 

Como já se percebeu, esta questão sai do relvado e entra na moral da sociedade por inteiro. Aliás, a falta de firmeza perante as claques é um dos sintomas de uma doença grave que nos afecta há décadas: a sociedade portuguesa confundiu autoritarismo com autoridade. Se o primeiro conceito invoca um sistema político filha da mãe, o segundo representa um valor fundamental na vida democrática. Ao contrário do que reza a lenda, democracia não é a abolição da autoridade. É, isso sim, a legitimação da autoridade. O poder policial do Estado Novo era ilegítimo, porque estava ao serviço de um regime autoritário. O poder policial da democracia é legítimo, porque está ao serviço do nosso bem comum. À justiça da ditadura, que tinha duas espadas e nenhuma balança, não se seguiu uma justiça com duas balanças e nenhuma espada. A justiça democrática tem a espada ao lado da balança, e não deve ter medo de usá-la. Uma carga policial sobre claques de gandulos não é repressão, é lei e ordem. A proibição activa destas claques lideradas por criminosos não é repressão, é decência.

Será preciso morrer alguém para acabarmos com a brincadeira?