Siga-nos

Perfil

Expresso

O namorado da sua filha é diferente do Manuel Palito?

  • 333

VIOLÊNCIA O Manuel Palito é omnipresente

FOTO MARCOS BORGA

Minha cara leitora, morar ao pé de escolas pode ser um suplício. Há dias, um rapazola batia na namorada quase por desporto. Ele estava a aplicar-lhe uma sucessão de bofetadas com um ar de galã porno, como se aquilo fosse um preliminar. Cruzei a rua, rompi o anel de amigos e amigas que cercava em silêncio o casalinho e dirigi-me ao Manuel Palito com penteado à Justin Bieber, “olha Tarzan, vi dois PSP há pouco, queres que os chame?”. As palmadinhas pararam, mas voltarão. Até porque a reação da miúda fez lembrar o complexo de Estocolmo. Porque é que isto acontece? Quando pensamos em violência doméstica, a figura que nos vem à cabeça é o tuga cinquentão e bigodudo criado no tempo da Maria Cachucha. Pensamos no Manuel Palito numa tasca perdida nas zonas sertanejas, não pensamos num adolescente lisboeta nascido em 2000. Mas a verdade é que este é um fenómeno cada vez mais comum. Como dizia ontem um especialista (Daniel Cotrim) à Renascença, os casos de violência começam a marcar o namoro entre os 12 e os 15 anos.

Porque é que a violência está a descer na escala das idades? Na minha modesta opinião, cara leitora, a explicação está em dois fatores. O primeiro é o acesso massivo à pornografia. Os garotos hoje começam a ver pornografia pesada logo na infância. Qualquer garoto de oito anos sabe entrar na internet a partir das milhentas portas de acesso que tem à disposição. E garanto-lhe que ele vai à procura de porno mesmo nessa idade. Garanto-lhe. Não é preciso tirar um doutoramento em psicologia infantil para perceber que o acesso à pornografia em tão tenra idade só pode fazer mal, só pode criar uma imagem distorcida da mulher e das relações amorosas e sexuais. Quando eu tinha oito anos, lá aparecia de vez em quando uma revista meio rasgada que os mais velhos me deixavam vislumbrar de longe. Tinha umas migalhitas de porno. O sexo continuava a ser uma coisa longínqua e misteriosa – tal como deve ser aos oito anos. Hoje em dia, o garoto de oito anos nem sequer passa pelas revistas, vê logo filmes inteiros que estão à distância de um clique. Minha cara leitora, o miúdo que estava a dar palmadinhas no rosto da garota já viu centenas de vezes filmes pornográficos que teatralizam a submissão feminina.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI