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A sida e a pontualidade do cancro

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Chamemos-lhe Nuno. Foi o primeiro infetado pelo HIV que apareceu no bairro. Já tínhamos ouvido falar do Variações e do Freddie Mercury, mas era a primeira vez que a tal SIDA aparecia ao vivo e com poucas e baças cores. Ali estava um rapaz que andou nas nossas escolas, que jogou à bola connosco, que frequentava os mesmos cafés. A realidade assusta sem a mediação da TV. Quando Nuno entrava no café, as pessoas afastavam-se, abriam caminho como se estivessem a abrir alas ao INEM ou à carreta fúnebre; quando o indesejado esqueleto saía, amparado na mãe, ninguém se sentava na cadeira por ele usada e a sua chávena da bica era desinfetada com álcool, lixívia e creolina (por esta ordem) e, de seguida, guardada em local seguro: o lixo. No início dos anos 90, um doente de sida era o leproso do vale dos leprosos de “Ben-Hur”. Se por acaso saísse desse gueto, se por acaso andasse pelo mundo dos vivos, era recebido com esta hostilidade provocada pelo medo.


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(O Expresso Diário é de acesso gratuito até 15 de maio)