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Coluna de alterne

O dr. Salgado, a CPI e o princípio de Heisenberg

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Há, obviamente, uma enorme tendência na sociedade portuguesa para toda a gente acusar o outro de mentir. A Coluna de Alterne, sempre atenta aos fenómenos sociológicos, descobriu a razão de tal procedimento: estamos num país onde a verdade e a realidade não podem ser simultaneamente adquiridas. É o princípio de Heisenberg aplicado à CPI do BES

Vejamos, por exemplo, o caso de Ricardo Salgado. A gente ouve-o e fica com a sensação que ele é um homem honrado, incapaz de fazer aquelas coisas tipo sacar dinheiro para ele sem dizer nada aos outros, enganar os clientes, os sócios, enfim... todos! Mas vem um outro senhor, também polido e ilustrado que diz precisamente o contrário - que o Salgado sacou o mais que pôde e combinou com o Granadeiro que este poria quase 900 milhões da PT numa sociedade que não valia nada. Mas o Granadeiro que é tão boa pessoa, educado e culto, diz que foram 200 e que, de resto, o Zeinal Bava sabia. O Bava, que é um gestor espetacular, aparece e não se lembra de quase nada (o que é natural porque estava no Brasil, onde como se vê pelo 'petrolão' e os outros escândalos todos, ninguém se lembra de nada); ainda assim Bava sabe que não sabe que os outros estão a fugir à verdade. Depois vêm os CFO que quer dizer em português Chief Financial Officer (em inglês, diretor financeiro) tanto da PT como do BES e dizem outra vez que o Salgado está a mentir e o Granadeiro também.

E as pessoas perguntam-se: e o Governo? E os reguladores? Bem, os reguladores têm versões diferentes. Há a do Banco de Portugal e a da Comissão de Mercados e Valores Mobiliários (CMVM). E, claro, nenhum tem culpa. Já o Governo não sabia de nada e estava até convencido que quem mandava em Portugal era o Ricardo Salgado. Todos, menos o dr. Paulo Portas que explicou tudo muito bem. Como é evidente, nenhum sustenta a tese do ex-patrão do BES. Já Fernando Ulrich (já adormeceram ou conseguem continuar a ler isto?) diz-se amigo da família Espírito Santo, mas acha que tudo isto podia ter sido evitado e pensa que houve mão do Governo.

Perante tudo o que já se ouviu e se há de ouvir, chega-se a uma conclusão: eles estão todos a dizer a verdade. Só que, a verdade, como muito bem explica o relativismo pós-moderno e o prof. Boaventura Sousa Santos, não é um valor em si, nem uma categoria em si, mas uma perspetiva que depende do observador. Aliás, os mais sofisticados desta escola baseiam-se no princípio da incerteza de Heisenberg para sustentar a sua tese (embora ela seja falsa, porque o princípio de Heisenberg é sobre a indeterminação e não a incerteza, mas isso, claro, depende da perspetiva).

Temos pois que, em Portugal, existe um princípio da CPI do BES que é semelhante ao de Heisenberg. Neste, diz-se, de forma simples e resumida, que não é possível determinar simultaneamente o lugar e a velocidade de um eletrão, por exemplo. Já no princípio da CPI do BES não é possível saber a verdade e, simultaneamente, o que na realidade se passou. Porquê? Porque a realidade está sempre em mutação e o observador independente interfere com essa mesma realidade ao pretender chegar à verdade.

Quer isto dizer que se nós quiséssemos uma resposta simples, do tipo - o Salgado abotoou-se ou não se abotoou? - jamais a obteríamos porque para isso teríamos de compreender a realidade em que o dr. Salgado se move e que é demasiadamente rápida para que uma verdade seja estabelecida.

Eis porque ficaremos todos na mesma. A menos que possamos meter os responsáveis todos desta trapalhada no CERN (o maior acelerador de partículas do mundo) e fazê-los chocar uns contra os outros!