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Expresso

Coluna de alterne

25 de Abril, sempre! (ou, pelo menos, de vez em quando)

Esta Coluna, que já anda no alterne há muitos anos (além de virar frangos e essas coisas) descobriu dois camaradas de sempre: o Comendador e o Camarada cujo nome não ocorre ao Comendador, uma vez que o olvido e o esquecimento, o famoso Rio Letes, atacam com a idade e não perdoam. Porém, nesta época do ano, camarada é um nome perfeitamente conveniente para chamar alguém que connosco vibrou os idos de Abril quase tanto quanto Caio Júlio César vibrou com os idos de Março (se não estais a perceber, ide à enciclopédia, que eu não tenho tempo de explicar). A mim, compete-me relatar a conversa:

Comendador (Co) - Camarada!

Camarada (Ca) - Camarada!

Co - Lembras-te dos tempos do 25 de Abril, camarada? Aquilo é que eram tempos!!!

Ca - 25 de Abril, sempre! Camarada!

Co - Sempre é capaz de ser exagerado. A gente deitava-se tardíssimo, nem dormíamos... Eu já não era capaz...

Ca - Pronto, Camarada, estamos velhos, mas o 25 de Abril, se não for sempre, podia ser dia sim, dia não...

Co - É capaz de ser demais. Porque também bebíamos imenso. Era sempre a aviar uísques com gelo e cerveja e vinho tinto. A celebrar isto e aquilo. O meu fígado já não aguenta. Mas acho bem que seja 25 de Abril, vá lá, uma vez por semana...

Ca - Agora digo eu que não sei se aguentaria. Tu lembras-te, camarada, das manifestações que fazíamos? Era do aeroporto até ao Rossio e desde o cu de judas até sei lá onde. Na verdade, já não tenho pernas para tanto.

Co - Ó, camarada, se não for uma vez por semana, pelo menos uma vez por mês!

Ca - Sim, 25 de Abril uma vez por mês podia ser... Talvez... Deixa cá ver, por exemplo, para o mês que vem.

Co - Eu, para o mês que vem teria dificuldades. E além disso, aquilo era um bocado confuso. Não sei se aguentaria tanta confusão... andava sempre tudo a mudar. O Governo mudava de três em três dias, as ruas mudavam de nome, os patrões fugiam, os gestores eram saneados... Sei lá, havia muita ansiedade. E eu já tomo ansiolíticos e coisas para baixar a tensão e para o coração... Não sei se seria de mais.

Ca - Camarada, pronto! Dizemos 25 de Abril quando um homem quiser!

Co - Um homem ou uma mulher. Não faças distinção de sexo!

Ca - De género.

Co - De género o quê?

Ca - Agora diz-se distinção de género não é de sexo.

Co - Já não há distinção de sexos? E como é que aquilo funciona?

Ca - Não é isso, pá, camarada. Diz-se género em vez de sexo.

Co - Tipo vou fazer género com aquela miúda?

Ca - Não, nada disso. Voltamos ao 25 de Abril. Se não é sempre, e já vimos que não pode ser, é quando um homem ou uma mulher quiser, como o Natal.

Co - Ó camarada, essa frase irrita-me, até porque o  Natal é no dia 25 de Dezembro. Não gosto. Arranja lá uma melhor.

Ca - Não sei...

Co - Olha, eu sei: 25 de Abril de vez em quando!

Ca - Acho bem! Quando for preciso!

Co - E quem é que decide que é preciso?

Ca - Sei lá, camarada! É uma questão concreta de resposta difícil. Tínhamos de fazer um plenário.

Co - Quando?

Ca- Não sei, mas nunca antes de outubro, que eu ando cansado, depois mete-se o 1º de Maio, as férias grandes e isso tudo...

Co - Não pode ser quando for preciso, porque pode ser preciso e não haver disponibilidade. A palavra de ordem tem de ser - 25 de Abril, de vez em quando. Olha, camarada, esta é que é: 25 de Abril de vez em quando!

Ca - Sim senhor, camarada! Viva o 25 de Abril! 25 de Abril de vez em quando!

Co - E hoje já é 26... temos de deixar espaçar um bocado mais.

Ca - É isso, camarada! Até à próxima.

Co - Ainda bem, camarada, que só nos encontramos de vez em quando. Até já estava cansado!