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Expresso

Não foi para isto que fizemos o 25 de Abril

Coluna civicamente atuante e militante, descobre variadíssimas maleitas, para além do grupo que é contra as vacinas do sarampo, que afetam o tecido social português. Algumas, além do tecido, afetam ainda o forro, os botões, os atilhos, os nós, os laços, as visões e as aparições além das manhãs submersas. Mas parece que estou a desviar-me do tema que era… Já sei! As diversas coisas que afetam o tecido e que não foi para elas que fizemos o 25 de Abril

Antes dessa manhã gloriosa, seminal, que foi a da Revolução dos Cravos, além da guerra colonial que era uma coisa sem importância para quem não andava lá ou tinha como destino ir lá parar com os costados, a vida do país fazia-se à volta dos três F (Fado, Futebol e Fátima). Veio o 25 de Abril e o progresso foi significativo, pois passámos a fazer a coisa à volta dos três D (Democratizar, Descolonizar e Desenvolver). Anos volvidos o nosso destino continuou à volta de três letras – PEC (Plano de Estabilidade e Crescimento). Mas, se havia plano e se havia e há alguma estabilidade, crescimento está quieto! Nem vê-lo!

Por isso, não podendo desenvolver os nossos talentos, apesar das boas notas obtidas nos TIMMS e nos PISA, tivemos de voltar às letras do passado. Democratizar era coisa que já estava feita e sempre se podia ir um pouco além aqui e ali, mas nada de especial. Descolonizar já nem tinha pés nem cabeça. Desenvolver era bom, mas a avaliar pelo Crescimento era uma coisa quase impossível, pelo que apenas assistimos ao desenvolvimento dos impostos que passaram a ser muito mais.

Terá sido por isso que voltámos mais atrás, e de novo olhámos os três F. Embora com prioridades diferentes. O Futebol é largamente maioritário, como ainda ontem à noite tivemos oportunidade de ver. E, como é pouco dado a polémicas (porque é mais dado a insultos), passou claramente de segundo F, depois do Fado, para primeiro. O Fado, pelo contrário, perdeu importância. Primeiro porque se integrou na World Music que manifestamente é como dizer que vale o mesmo que um yodel austríaco ou bávaro, como se no yodel austríaco ou bávaro existisse aquela desgraça toda que um fado contém. Depois porque deixou de ser cantado por mulheres com muito boa voz, mas nem sempre muito boa fama, e por homens com aspeto e voz canalha e passou a ser uma coisa de betinhos que têm ar de beber copos de leite e comer croissants em vez de se atirarem ao vinho tinto e ao pastel de bacalhau. Eis a razão por que o F de Fado se descaiu do primeiro para o terceiro lugar. Porque Fátima tem vindo a subir, numa escalada sem par. Sendo que este ano, ao comemorar o centenário tem, ainda, como atrativo a canonização dos pastorinhos, a visita de Sua Santidade e a substituição das aparições por visões, o que nos deixa mais tranquilos, porque um dos pontos, digamos, inquietantes era o facto de Nossa Senhora poder cair da azinheira, o que só aconteceria numa aparição, mas nunca numa visão.

Por isso, passados 43 anos do 25 de Abril voltámos aos três F mas com uma ordem totalmente invertida – Futebol, Fátima e Fado. Não que me afete a inversão, até porque é legal, mas porque o 25 de Abril não foi feito para isto, mas para Democratizar, Descolonizar e Desenvolver. É pois preciso o quê? Voltar a juntar as letras! Democratizar o Futebol, Descolonizar Fátima e Desenvolver o Fado, sem esquecer de fazer um plano (ou de preferência, como diria o Dr. Jorge Sampaio um projeto integrado) onde estabilizássemos estas opções e as desenvolvêssemos.

Os três D e F serão assim o nosso farol. Não percebo bem como é que se descoloniza Fátima, mas também já se sabe que essa é a parte mais misteriosa e confusa de qualquer projeto. De resto, democratizar o futebol e desenvolver o fado parece-me tarefa ingente e urgente.

Viva o 25 de Abri, morte ao fascismo, viva Portugal, viva o senhor Presidente da República!