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Expresso

O Jardim da esquerda

Coluna literária, sempre disposta a ler resumos de calhamaços, não podia deixar passar incólume as 848 páginas que esse Pico da cultura portuguesa que á Alberto João Jardim dedicou ao maior madeirense de sempre – Alberto João Jardim. O tomo chama-se ‘Relatório de Combate’, mas infelizmente, por muito que víssemos resumos e até nos dessemos ao trabalho de folhear um pouco o livro, não encontrámos quem queira combater contra ele. Trata-se, pois, de obra insólita: um combate do autor contra si próprio e, por vezes, contra o português, com ou sem Acordo Ortográfico

E o que diz o autor: diz bem de Cavaco, de Guterres e de si próprio, que deu 48 vitórias ao PSD – tantas quantos os anos da ditadura entre 1926 e 1974 –, diz assim-assim de Marcelo e de Costa e diz mal de Passos. Pelo meio aposta – com quem? – que Fernando Medina chegará a primeiro-ministro. E sublinha a bombástica frase: “estou à esquerda como nunca”. Como podem não acreditar ponho aqui um daqueles links para a SIC, de forma a confirmarem.

Ora o que dizer disto? Em primeiro lugar que a palavra nunca é muito traiçoeira. Quando o douto autor diz “como nunca” quer dizer o quê? Que nunca esteve à esquerda e agora está? Que permanecendo à direita, está um pouco mais à esquerda? Que presentemente (nunc, em latim) é de esquerda? Que em nenhum lugar (nusquam, em latim) é de esquerda? Bem sei que as pessoas ligam pouco a estas variações, mas elas afiguram-se-me importantes para compreender, de forma definitiva, o pensamento jardinesco. Na verdade, eu nunca presumi que o Dr. Jardim fosse de esquerda, e penso que ninguém o fez. Mas se é ele que diz que está - e volto a citar – à esquerda como nunca, como havemos de o confirmar ou desmentir?

Na verdade, ele chama radical de direita a Passos Coelho. E não basta dizer que Passos Coelho é radical de direita para se ser de esquerda? Não sei, nunca ouvi o dr. António Costa, de quem ele gosta assim-assim, chamar radical de direita a Passos, embora vontade não lhe deva faltar. E, ainda que alguém no Bloco de Esquerda o tenha feito, isso não deve significar que o Dr. Jardim pretenda aderir ao Bloco de Esquerda. Porque nem o Bloco deixava nem, porventura, o Dr. Jardim queria.

Qual será a esquerda do Dr. Jardim? Eis uma pergunta interessante, porque a sua resposta pode ser surpreendente. Ele pode apenas estar à esquerda de quem entra, ou à esquerda de quem sai, ou seja, num lugar físico relativo que não pode ser visto como um absoluto. Deixem-me dar um exemplo: o Professor Francisco Louçã pode dizer: Eu estou menos à esquerda desde que apoio o Governo PS; ou mesmo: Estou mais à esquerda do que nunca, apesar de apoiar um Governo, porque se entende perfeitamente o que diz. Como o deputado Jerónimo de Sousa pode fazer o mesmo e, até, embora com mais interrogações, o Dr. António Costa. Do mesmo passo, a Drª Assunção Cristas pode dizer, estou à direita como nunca, ou estou um pouco menos à direita, sem que isso cause qualquer confusão ou estranheza. Mas se a Drª Cristas dissesse estou à esquerda como nunca (abandonamos o Dr. Passos por ter sido considerado radical de direita), ficaríamos baralhados.

Por isso, sou levado a crer, após ter pensado cerca de 2’ e 59’’ no assunto que, para o Dr. Jardim, esquerda e direita não são posições ideológicas ou lugares geográficos, mas sim uma espécie de gostómetro. Se ele gostar muito do líder do PSD, está social-democrata, centro-direita e tudo isso. Se gostar menos, como foi do caso de Marques Mendes, fica um pouco à esquerda; se a querela foi com alguém como Balsemão, Belmiro, ou Soares dos Santos, fica anticapitalista, mas se por acaso um capitalista se colocar do lado dele, fica completamente rendido à beleza da economia de mercado. Quando um líder do PSD manifestamente não o apoia, ele fica “à esquerda como nunca”.

Eu sei que há uma palavra para definir este tipo de pessoas que têm tendência a dizer uma coisa e o eu contrário porque medem o mundo e as circunstâncias em que vivem em função de postulados não partilháveis. Quando tal acontece a um indigente chama-se maluco, mas quando se trata de um ex-presidente de um Governo autónomo e ex-membro do Conselho de Estado, esse nome não é apropriado.

Talvez excêntrico, ou assim-assim…