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Expresso

O PCP nunca pediu a demissão de um ministro. É verdade!

Coluna arguta e sempre disposta a fazer a mais recente coqueluche do jornalismo que é o fact-check, pode afirmar, perante quem tenha dúvidas, que o PCP só não pede a demissão de Mário Centeno porque, na verdade, como afirmou e desafiou o seu dirigente João Ferreira, os comunistas nunca pediram a demissão de um ministro. Ao contrário do que disse na SIC o jovem Bernardo Ferrão que, só mesmo por juventude, pode ter confundido os planos

Claro que o jornalista Bernardo foi defender-se, que é sempre o que fazem os jornalistas. E foi aos arquivos à procura de frases de dirigentes do PCP que num dia qualquer tivessem indicado a porta da rua a um ministro. Ficou convencido de que fez o seu trabalho porque aparentemente vários dirigentes proclamaram que este e aquele deviam abandonar o Governo.

No entanto, Bernardo, cometeu um grande erro. Não percebeu a coisa mais importante e decisiva do comunismo. Eu passo a explicar-lhe: o comunismo e o Partido são imaculados. Infelizmente têm, um como o outro, de ser contruídos e vivenciados por homens. Estes transportam consigo a força mais reacionária do mundo, que como dizia Lenine, é a força da tradição. É, pois, natural, que cometam erros, ainda que inadvertidos. Quando os cometem, meu caro Bernardo, os comunistas autocriticam-se e ficam tão puros como uma rameira depois da confissão e do de contrição.

Acresce que as posições do PCP para poderem ser consideradas como posições do PCP têm de estar escritas numa folha com o emblema e ter um título do estilo “Posição do Comité Central do PCP sobre a necessidade de demitir o ministro tal e mudar para uma nova política”.

Ora o que descobriu a SIC e o Bernardo nos arquivos? Algumas pessoas sem importância como o Jerónimo de Sousa, o João Ferreira, o Bernardino Soares, o João Oliveira e mais uns tantos, a falarem. De quê? Não de demissão de ministros, nem isso a SIC conseguiu encontrar, mas de coisas que, sendo semelhantes, são substancialmente diferentes.

Por exemplo, um destes dirigentes, pede que Maria Luís Albuquerque abandone o Ministério das Finanças. Mas Maria Luís nunca foi ministro, foi ministra. Só o machismo de Ferrão pode levar a confundir uma coisa assim. O mesmo se aplica, de resto, a Paula Teixeira da Cruz e Celeste Cardona. Estamos arrumados por aqui.

Depois há uns apelos à demissão do Governo todo. E sabe-se que o todo não é igual à soma das partes na moderna teoria quântica que o PCP adotou no mais recente Congresso. Por isso é argumento que também não colhe.

Há ainda um dirigente comunista que parece pedir a demissão de Miguel Relvas. Mas, como se sabe, Relvas tendo habilitações duvidosas não tinha condições para ser ministro. O que o PCP estava era a explicar-lhe isso mesmo e nada mais.

Noutro argumento diz-se que Paulo Portas foi alvo do PCP. Sim, mas como líder do CDS. O PCP atacou o líder do CDS e não o ministro. O facto de ele ter de deixar o Governo tinha a ver com o seu mau desempenho no Caldas.

Por último parece que foi pedida a demissão de Nuno Crato. Mas Nuno Crato nem sequer existe. Foi sempre uma invenção de Mário Nogueira, uma espécie de diabo criado pela Fenprof destinado a mobilizar os fiéis. Ah! E mesmo que existisse, tinha habilitações a mais, estava claramente sobre-habilitado para o cargo, coisa para a qual o PCP quis alertar.

Por isso, amigo Bernardo. Eles, no PCP, têm razão. Nunca pediram formalmente e em papel timbrado a demissão de um ministro e mesmo aqueles militantes sem importância (que mais tarde se autocriticaram) apenas indicaram pessoas que não tinham condições para estar no Governo. Quer isto dizer que o PCP jamais pediu a um homem ou mulher com condições para governar que o deixasse de fazer. Aliás, isso é muito dos comunistas – aguentá-los até caírem.