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Expresso

Quase - na senda de Sá Carneiro

Coluna mais do que dórica, jónica ou coríntia, esta é uma coluna tipo obelisco, ereta e sem medo! Sempre pronta a descobrir contradições, também as sabe perdoar porque, colocando-se na pele (ou nos sapatos, ou talvez noutro local menos habitado por germes) do outro, compreende que a fraqueza humana é ilimitada e, assim sendo, como ensinou La Palice, não se pode limitar

Descobri que o Dr. Pedro Passos Coelho, do alto das suas previsões, disse “Temos quase a certeza de que haverá uma nova crise, não sabemos quando, mas sabemos que haverá”. Fê-lo perante muitos ouvintes (enfim, alguns ouvintes, ou pelo menos em número suficiente para ouvirem) num debate sobre o Futuro da Europa. E quero dizer que o Dr. Passos tem toda a razão. Eu também tenho quase a certeza de que haverá uma nova crise, só não sei quando. Aliás, em matéria de previsões eu tenho quase a certeza de que acerto sempre, só não sei quando.

Repare-se que o termo ‘Quase’ está na origem do sá-carneirismo, já que Mário de Sá-Carneiro escreveu o célebre ‘Quase’ que começava assim:

“Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem... “

O tipo de previsão poderosa do Dr. Passos assenta numa ‘quase certeza’ que é o mesmo do que dizer numa improvável incerteza. Ou numa diminuta incerteza, algo que tem uma quase possibilidade de acertar ou, pelo menos, uma diminuta possibilidade de falhar.

Por exemplo, se eu disser: “Tenho quase a certeza de que o Dr. Passos Coelho vai ser corrido do PSD, só não sei quando, mas sei que vai ser”, é quase certo que acerto. Mais difícil, a frase “Tenho quase a certeza de que o PCP e o Bloco se vão zangar com António Costa, só não sei quando, mas sei que se zangarão” é outro postulado com uma riqueza de previsão que atinge os 90 por cento de possibilidade, ou mais.

Para não endeusar em excesso o Dr. Passos, dir-lhe-ei apenas que o único erro que ele cometeu foi ao dizer que o Diabo chegava em setembro. O que ele devia ter dito era o seguinte: Em setembro é que vai chegar o diabo, mas há outros 11 meses em que isso pode acontecer. Lá está, escondendo em que ano era, teria mais possibilidades de acertar no setembro; afirmando que a previsão era válida para mais 11 meses tinha a hipótese de acertar mesmo que não fosse em setembro.

Agora sim, ele afinou a capacidade de previsão. Ao ter quase a certeza, o que eu partilho em absoluto, deixou em aberto não ter certeza nenhuma. E eu, nesse aspeto, sou até mais otimista do que ele. Porque eu tenho a certeza que havemos de ter outra crise, só não sei se as pessoas se lembrarão de que eu disse isto quando ela chegar.

Por isso parabéns Dr. Passos. Estamos a melhorar. Assim já tenho quase a certeza de que o PSD não correrá contigo para a semana. Mas, claro, pode acontecer que falhe… eu disse quase a certeza, não dei a certeza absoluta, até porque não gosto de dar nada a ninguém, mesmo em época natalícia.

Disse!

PS, ou PSD ou outra coisa qualquer – Nos próximos dois domingos a Coluna de Alterne não se publica. A 25 de dezembro por motivos religiosos e a 1 de janeiro por motivos licorosos. Até 8 de janeiro, deseja esta coluna um excelente Natal, um próspero Ano Novo e tem quase a certeza de isso vai ser assim. Ou então não.