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Expresso

As exigências de Paulo Macedo

Há quem possa pensar que o Dr. Macedo é Paulo para toda a obra. Mas esta coluna soerguida sobre uma fenomenal inteligência e capacidade de observação sabe que assim não é. António Domingues fez exigências que não foram cumpridas, segundo se diz. Por isso o Dr. Paulo Macedo exigiu que as suas exigências ficassem estipuladas por escrito e fossem depositadas num cofre que tenho no Banco Nacional Ultramarino, cofre esse que não sei dele, mas onde hei de colocar o papel que me foi entregue pelo Governo e pelo novo CEO da Caixa, assim que me lembrar

O acordo firmado por Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Mário Centeno e Mario Draghi em nome do Estado português e por Paulo Macedo em nome de Paulo Macedo é um documento de umas meras três páginas que implica obrigações mútuas. Do lado de Paulo Macedo ele obriga-se a entregar, uma vez mais, aquele papel que o Tribunal Constitucional conhece tão bem que o funcionário já o sabe de cor – a declaração de rendimentos e património. Isto é tão verdade que um dia o funcionário do Tribunal, ao lhe perguntarmos onde estava o ex-ministro da Saúde, nos respondeu: está numa das suas duas casas que ficam localizadas nas seguintes moradas (e descreveu as moradas) a gastar o que lhe sobra do salário deste mês que calculo ser (e disse o que calculava ser a sobra do salário desse mês). As informações que ocultamos é para verem como não somos voyeuristas, embora nos dediquemos a outras taras também pouco recomendáveis.

O Estado português, representado como já disse por Marcelo, Costa, Centeno e Draghi (quarteto defensivo apreciável), apenas exige que Paulo Macedo gira (de gerir e não de girar) bem o banco e que entregue a declaração de rendimentos. Por seu turno, o caderno de encargos do Dr. Paulo Macedo é muito maior. Começando por confirmar que tem toda a intenção de gerir bem o banco e que se compromete à entrega da declaração de rendimentos, exige:

  1. Que o deixem em paz e não se metam na gestão do banco;
  2. Que nunca mais digam que ele estava a destruir o SNS quando fez parte do Governo e que, se o Bastonário da Ordem dos Médicos o disser outra vez, deve ser admoestado pelo Governo atual;
  3. Que o Governo atual não diga mal do Dr. Pedro Passos Coelho mais do que uma vez por mês (cláusula que foi negociada, pois onde lê mês está riscado e substituído por quinzena);
  4. Que o seu salário não seja objeto de contestação por parte dos partidos da ‘geringonça’ e que o PS lhe peça desculpa por achar que ele ganhava de mais quando era Diretor Geral de Finanças (a parte do pedido desculpa está riscada e substituída por ‘evite falar do tema’);
  5. Que os caloteiros amigos do Governo paguem o que devem à CGD (a seguir a caloteiros foi colocada uma adenda pelo punho do novo administrador onde se lê ‘não me obriguem a dizer os seus nomes’);
  6. Que os assuntos da CGD não sejam discutidos com o Dr. Mourinho Félix nem com o Dr. Mário Centeno, mas com o Dr. António Costa e o Dr. Mário Draghi (este último escreveu ‘Ecco!’);
  7. Que o Dr. João Galamba fale menos 20% do que atualmente, a Dr.ª Catarina Martins menos 15% e a Dr.ª Heloísa Apolónia menos 90%;
  8. Que o Dr. Marques Mendes não tente adivinhar que medidas o Dr. Paulo Macedo vai tomar;
  9. Que o seu mandato não seja perturbado com ameaças, greves ou lutas sindicais sem nexo, nomeadamente no que respeita às rescisões amigáveis de contrato que resultam do plano de ação acordado com o BCE;
  10. Que o edifício da CGD possa ser dinamitado assim que os lucros do banco estejam em linha com o desejado (Marcelo sublinhou esta parte e escreveu: preocupação estética assinalável, vê-se bem que o pai de Paulo Macedo era artista plástico).

E pronto, tendo sido assinado e rubricado por todos os envolvidos pôde o Governo anunciar ao país que não havia melhor gestor do que um membro daquele terrível Governo que, caso ainda estivesse em funções, destruiria Portugal. Na ocasião, o Dr. Draghi voltou a exclamar: Ecco, ecce homo!