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Expresso

Carta de Mário David a António Guterres

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Não há maus rapazes, como dizia o Padre Américo assim como nem tudo o que parece é. Coluna direita e reta, sempre pronta a desfazer intrigas e mal entendidos, publicamos na íntegra e em rigoroso exclusivo a carta em que o apoiante português de Kristalina felicita Guterres pela sua vitória na ONU. Ei-la (ou ei-ze-lia, como diz o povo):

“Caro António Guterres, ilustre e bem-amado próximo secretário-geral da ONU já a partir de 1 de janeiro próximo futuro:

Escrevo-te para te felicitar pela total, retumbante e extraordinária vitória e também porque sinto que te devo uma explicação. Como sabes, diz a Comunicação Social que eu apoiei Kristalina para o teu lugar, por via de ser uma espécie de capacho da Merkel. Vão ser todos processados por terem usado a palavra capacho, que eu detesto e verbero e, ademais, nunca usei.

Porém, como sabes é verdade (não o capacho, mas o apoio à Kristalina). Mas fi-lo sempre a pensar em ti. Por um lado, pensava: ‘O que achará o Guterres de eu lhe estar a fazer isto? Perceberá ele, com a sua acutilante inteligência, o alcance do meu trabalho?’. Por outro, pensava que seria muito melhor para o mundo tu venceres.

Mas a Merkel não podia ser deixada à solta. E, antes que ela convencesse os franceses a não votar em ti (e como sabes a chancelerina quando se encosta toda no ombro do François Hollande ele derrete-se), tive de entrar em campo criando uma manobra de diversão.

Essa manobra passou por levar os russos a apoiar a Irina Bokova, que é uma ex-comunista e atual socialista búlgara, ao passo que Merkel e Juncker apoiavam Kristalina Georgieva, que é outra búlgara, mas conservadora. Sendo assim, os chineses desistiram da neo-zelandesa Helen Clark e passaram-se para o teu lado, ao passo que Boris Johnsson, da Grã-Bretanha, que andava a apoiar o Miroslav Lajcak, só porque ele se chama assim e Boris também tem nome de eslovaco, passou a render-se a ti. Foi então que os americanos perceberam que a Susana Malcorra da Argentina não tinha hipóteses e encorajaram-te. Os franceses que já tinham decidido (depois de uma reunião comigo) que devias ser tu, disseram aos ingleses que os americanos iam votar numa argentina, mas estes, recordados da guerra das Malvinas (ou Falkands) viram logo que tinham de fazer frente aos EUA.

Eu sei que isto parece um pouco confuso, mas é o grande jogo da diplomacia internacional. Acabaste com os EUA, a França, a Grã-Bretanha e a China (depois de um telefonema que fiz para Macau) ao teu lado e com os russos a absterem-se, depois de eu ter dito ao Putin que tu eras um socialista como a Bokova, omitindo que não tinhas sido comunista, embora lhes desse a entender que poderias ter sido, quando lhes afirmei que tu poderias ser o que quisesses.

Considero que o mérito da eleição é todo teu. Mas concede-me, caro António, que se não fora eu, isto estava tudo perdido. Tudo!

É por isso que te dou os parabéns e para não ficar atrás do Juncker te envio os melhores votos e um coração.

Teu, Mário"