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Expresso

Carta empenhada sobre as possibilidades do Presidente

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Coluna perspicaz esta, que se pôs à disposição do nosso (e vosso, confessem) bem-amado Prof. Marcelo Rebelo de Sousa a fim de servir de intermediário com o engenheiro Sócrates na complexa questão de se saber onde pode e não pode ir o Presidente sem que tal seja considerado uma afronta ao ex-primeiro-ministro. Depois de um encontro muito frutuoso, foi feita uma lista que vai ser rubricada pelas partes e servirá de roteiro doravante

Já se sabe que o Professor Marcelo não pode visitar o DCIAP porque isso corresponde a uma afronta ao engenheiro José Sócrates. Embora o Dr. Ricardo Salgado e vários outros doutores e engenheiros se pudessem queixar do mesmo, inexplicavelmente não o fizeram porque, já se vê, o único processo com real importância em Portugal é a ‘Operação Marquês’, não tanto pela operação ou pelo Marquês, mas sim porque envolve o inominável, inefável e arguto José Sócrates.

Mal o Presidente pôs um pé no DCIAP – coisa que mais de 90% dos portugueses desconhecia – já ele, lesto, percebera tudo. É por ele ser assim lesto, que lhe cabe, precisamente a ele (e não a outro) definir quais as fronteiras da decência que o Chefe do Estado deve respeitar.

O Supremo Tribunal de Justiça e qualquer Tribunal da Relação estão, obviamente, excluídos, porque isso seria um sinal do Presidente para que aqueles órgãos fizessem o seu péssimo trabalho (ao recusar os recursos de Sócrates) e com isso amarfanhar mais, ainda, se é possível o antigo e supremo líder do PS.

Do mesmo passo o Tribunal Constitucional fica excluído, uma vez que pode ser órgão de último recurso e qualquer visita do Presidente seria encarada como pressão sobre os 13 impressionantes juízes.

O Tribunal de Contas nem falar. Tudo o que envolva contas deve ser cuidadosamente evitado, em palavras, atos, ações e omissões, de modo a que não fique subentendido – como o antigo querido líder do PS rapidamente percebe – que há qualquer problema com contas.

A Assembleia da República só é visitável com muitos cuidados e dando de barato que o Presidente só fala com deputados que acreditam na inocência de Sócrates. Nenhuma referência à justiça, contas, amigos, prodigalidades, Paris, Freeport, Polícia Judiciária ou mesmo PSP deve ser feita. A ministra da Justiça, até por ser Procuradora-Geral Adjunta, deve ficar igualmente fora de qualquer comitiva presidencial.

Alcochete é, claramente, uma terra a evitar. Na Covilhã que o Presidente não pense em pôr os pés. Nem na Guarda – pois isso seria entendido como afronta. O próprio primeiro-ministro, António Costa, depois do baile que deu ao seu antecessor, para nunca ficar na mesma fotografia do que Sócrates, é um ser a evitar. É uma espécie de traidor. Se o Presidente quer falar com o Governo fale com o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros que parece ter ido ao aniversário do visado. Com a vantagem de falarem de assuntos internacionais, desde que evitem temas como Paris, offshores, Suíça, Angola, Venezuela ou Brasil.

De resto, o Presidente pode visitar explorações agrícolas e piscícolas, assim como fábricas, desde que não tenham recebido subsídios da Caixa Geral de Depósitos do tempo de Armando Vara. Aliás, o próprio nome de Armando Vara deve ser evitado em qualquer conversa que envolva qualquer pessoa pública, porque isso será considerado um ataque soez à personalidade e presunção de inocência do engenheiro.

A última declaração do Presidente, segundo a qual a sua função é melhorar a Justiça, está sob profunda análise. Por um lado, há vantagens em melhorar a Justiça; por outro, responder não parece um método sério de lidar com um inocente.