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Expresso

Obcecados com o défice!

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Uma coluna que não saiba ler sinais de fumo, entrelinhas de Marcelo, hieróglifos de Catarina Martins, segredos de Jerónimo de Sousa, preces de Assunção Cristas e uma coisa qualquer que Passos Coelho diga, não é digna de viver. A nossa coluna lê isso tudo e ainda o futuro na palma da mão da deputada Isabel Moreira ou na disposição dos colarinhos da camisa aberta de João Galamba. Aqui não há segredos, mas há compreensão a rodos

Por isso nós compreendemos a apreensão de Passos pela falta de crescimento do consumo interno. Afinal, fazia parte do programa do PS um grande incremento do consumo, colocando dinheiro nos bolsos dos portugueses, e estes continuam de bolsos vazios a consumir pouco. Ora Passos Coelho fica preocupado por dois motivos:

  1. O PS parece não estar a cumprir o seu programa;
  2. Os portugueses parecem não ter mais dinheiro.

Ao mesmo tempo entendemos bem a alegria de Costa pelo facto de o défice ir ficar – diz ele – confortavelmente abaixo dos 2,5 por cento, mesmo que o país não cresça assim tanto e as pessoas não tenham assim tanto dinheiro no bolso. Afinal, em Portugal havia, no governo PSD/CDS, segundo dizia o mesmo António Costa, a obsessão do défice e é sempre algo elevado e bom cumprir os sonhos e as obsessões do governo anterior. Por dois motivos:

  1. Mostra que o consegue fazer o que Passos não fez;
  2. Cumpre uma meta importante para a União Europeia.

O facto de os papéis estarem invertidos e ser António Costa a cumprir a obsessão do défice não tem qualquer importância para os portugueses. Não só estes sabem perfeitamente à custa de quem se conseguem objetivos tão magníficos – dos impostos pagos pela classe média -, como entendem perfeitamente a pertinência das políticas. Se os líderes dos dois principais partidos andam obcecados com o défice, é porque essa obsessão tem razão de ser.

Portugal não pode ser um país em que um dia se faz uma coisa e noutro dia se faz outra. Deve seguir uma política coerente que vá muito para além da legislatura. Ora pensamos que essa política está encontrada, trata-se de gastar mais dinheiro do Estado, sobretudo colocando-o na banca, e compensar esse aumento de despesa com tal aumento de impostos que o défice se mantenha baixo e dentro dos limites impostos pela União Europeia.

É o que António Costa está a fazer, com o apoio solícito do Bloco de Esquerda e do PCP. O PS realiza, finalmente, o programa do PSD e da direita, e de Schäuble e de Merkel. Nós ficamos na penúria, mas o défice está lá em baixo, calminho, sem se mexer, sem ameaçar, sem morder.

Só fica uma dúvida: por que motivo anda Passos tão preocupado com o facto de ser o PS a cumprir o que ele andou anos a tentar? Se fosse eu, não desistiria de elogiar o esforço do Governo por cobrar mais impostos, de modo a não deixar derrapar o défice.