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Expresso

Então e os afetos, Marcelo?

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Confesso que fiquei desiludido! Mais do que desiludido, dececionado! Ou talvez mais do que dececionado, desapontado! Ou talvez mais do que desapontado, desencantado. Quer dizer, como já devem ter percebido, fiquei desiludido com o Marcelo Rebelo de Sousa, meu querido amigo e companheiro de golfe, que por sinal nem eu nem ele jogamos

O desapontamento nasce como os cogumelos, tenho a certeza disso, embora não saiba como nascem os cogumelos, só sei que um deles, o maior, que é o Presidente, aguenta outro, que é o mais pequeno, o Governo, por uns tempos. Mas o desencanto cresce como os eucaliptos, que é muito rapidamente, o que permite utilizá-los com grandes lucros na fabricação de pasta de papel. Ora foi, desta forma rápida e com uma utilidade que ainda não conheço, que nasceu e cresceu a minha deceção por um ato (quanto a mim irrefletido) que o nosso Marcelo cometeu.

Passo a explicar: veio a Dona Catarina Martins, que é uma menina como deve ser, olhos grandes e fixos, e disse que era necessário referendar o Tratado Orçamental Europeu ou a própria Europa. Eu também acho que devemos referendar tudo, incluindo os olhos da Dona Catarina, para saber se os deve ter sempre assim arremelgados ou, pelo contrário, se os deve semicerrar para dar a entender que não é menos intelectual do que os outros. Mas, sobretudo, devemos referendar a Europa e o Tratado e tudo o que vier por aí. Porquê? Por uma razão muito simples: se o povo for a favor da Europa ficamos na Europa; se não for, ficamos à mesma mas os tipos na Europa ficam a saber que recebemos o dinheiro que eles mandam muito, mas mesmo muito contrariados.

Ora, até aqui, tudo bem. Só que chega o Marcelo e diz: referendo sobre a Europa? É que nem pensar! E deitou abaixo, assim de uma vez, toda a estratégia em que assenta o programa do Bloco de Esquerda, a estrutura da Dona Catarina Martins e a convicção do seu olhar.

Isso afetou-me, desiludiu-me e dececionou-me sobretudo porque o Marcelo sempre disse que seria um presidente de afetos. Escusava, pois, de ser tão bruto com a miúda, não havia necessidade. Bastava chegar ao pé dela, pôr-lhe um braço sobre as costas e explicar-lhe, docemente, que não fazia sentido fazer um referendo cuja resposta tanto faz porque a gente precisa mesmo do dinheiro do Banco Central Europeu.

Estou convencido de que, caso ele se tivesse lembrado dos afetos, a Catarina seria facilmente convencida. Porque, vamos lá a ver, a senhora percebe muito bem o que se passa e melhor ainda o que lhe dizem. Se o ‘não’ à Europa ganhasse, o que ganhava ela com isso?

Por isso, Marcelo, faz o que te digo: nunca te esqueças de ser afetuoso.

Beijos ternos do teu Comendador preferido.

PS (e PSD e Bloco e isso tudo): A boa notícia é que esta coluna só volta lá para 21 de agosto, ou assim, caso o Comendador ainda consiga escrever