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Expresso

O emprego do Barroso

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Não seria esta Coluna atenta, veneranda e obrigada a revelar todos os contornos do novo emprego do nosso ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia (futuro ex-presidente da Goldman Sachs); fá-lo apenas porque, ao contrário do que vozes invejosas de um bom salário têm andado a propagar, a contratação do nosso homem foi após uma dura seleção, de que aliás – não o escondo – fizemos parte

Tudo começou quando o Lloyd Blankfein, nome de que nunca ouviram falar, mas que é do tipo que manda naquilo, me telefonou. O Lloyd é um tipo simpático, careca, de 62 anos que foi meu aluno de “Teorias Gerais de Conspiração e Governança do Mundo”, em Harvard. Quando o conheci, era um pé rapado que vendia amendoins e cachorros no Estádio dos Yankees, em Nova Iorque. Como é óbvio andou na escola pública e na escola rabínica. Por essa altura andava o Durão Barroso na Faculdade de Direito a ser maoísta. E isto não tem importância nenhuma, mas é fundamental para o que se segue.

O Lloyd que é CEO, ou seja o chefe executivo da Goldman telefonou-me e perguntou-me se eu ainda dominava o mundo. Como estou velho disse-lhe a verdade: “Sim, domino, exceto as partes controladas pelo ISIS , pelo Boko Haram, pela ala liberal do Comité Central do Partido Comunista da China e pela Catarina Martins”.

O Lloyd achou que a parte que eu domino ainda era importante e perguntou-me de chofre: “Achas que eu podia convidar o Guterres para o cargo de Presidente Não Executivo (PNE) da Goldman?”. Achei mal. E disse-lhe que o António, embora muito sério e nobre de caráter, ultimamente só se tem dado com pobres e ranhosos de todo o mundo. Aí o Lloyd insistiu que queria um português. “Para quê?” – Perguntei-lhe. “Porque em Portugal andam sempre a dizer mal de nós” - respondeu.

Fiz-lhe ver que era mentira. Nós dizemos mal da Goldman, mas em contrapartida houve um tempo em que todos os ‘punks rurais’ tinham uma Sachs, nomeadamente a Sachs V5 que tinha um barulho muito racing apesar de só ter 50 centímetros cúbicos de cilindrada.

Mas, de qualquer maneira, o Lloyd insistiu: “E o Cavaco”. Respondi-lhe uma coisa ininteligível, mesmo para mim. E o Sampaio e o Gama? – insistiu o Lloyds – e eu disse-lhe que o Sampaio e o Gama, que eram outras possibilidades, não queriam deixar o país. “Ora – respondeu o Lloyds – eles não fazem nada, são PNE… Mas eu não aceitei o argumento. Até que o tipo disse: “Já sei! O Portas!”. Desiludi-o. O Portas está na Mota Engil que é quase tão mal vista como a Goldman.

- Ó diabo! – exclamou ele - e logo na Mota que são nossos concorrentes a dominar o mundo. Então só se for o Durão Barroso, apesar de ter sido maoísta quando eu vendia amendoins e cachorros quentes”.

- Que tem uma coisa a ver com a outra? – indaguei eu.

- Nada mas é importante que saiba!

Achei a ideia boa, tanto mais que Barroso já tinha estado nas reuniões de Bildeberg e por isso era bom para dominar o mundo e humilhar as nações. Disse ao Lloyds: “A vossa ideia continua a ser dominar o mundo e humilhar as nações?”. E ele respondeu: “Claro, é isso mesmo”. E foi assim que Barroso conseguiu o emprego.

No espaço seguinte sou obrigado pelas autoridades a expressar o ponto de vista oposto. Opto pelo de Catarina Martins (que chegou a ser falada para a J.P. Morgan): “A Comissão Europeia, tanto agora, como quando era dominada por Barroso queria apenas levar a cabo a política neo-liberal e humilhar as nações. O facto de a conferência de imprensa de Dombrovskis e Moscovici ser à mesma hora do debate sobre o Estado da Nação em Lisboa foi uma provocação”. Acrescento outra declaração para equilibrar: “Em vez de responder pelo crime da guerra do Iraque, Barroso recicla-se no gangsterismo financeiro global”, escreveu Jorge Costa (que não foi convidado para a administração da CGD), dirigente e deputado do Bloco de Esquerda”.

Ao ler isto, Lloyds disse: porreiro, é isso mesmo. Agora dizem mal do Barroso, já não dizem mal de nós.