Siga-nos

Perfil

Expresso

Abram alas para o Portas

Esta coluna descobriu o que ninguém, até hoje, se atrevera a procurar. O caso é o seguinte: Paulo Portas vai ser comentador da TVI não por querer ser Presidente da República – jamais teve ele essa ambição – mas vai ser Presidente da República porque sempre quis ser comentador da TVI. Eu sei que, à primeira vista, a diferença parece pouca. Mas um dos males do nosso país é que muita gente dá a primeira vista – o Camões, por exemplo

O exemplo de Camões não devia ter sido dado. Acho que é por isso que nunca serei Presidente da República nem comentador da TVI, ao domingo, respondendo a perguntas de Judite de Sousa ou de qualquer jornalista que convenha à estação ter em estúdio àquela hora. Eu devia ter sido recatado em relação a Camões e dizer o mesmo que os vulgares comentadores:

“É um épico. O maior épico da nossa língua, e não é por acaso que lhe chamamos língua de Camões. Como sabem, o grande Camões nunca utilizou o Acordo Ortográfico, o que me leva a pensar que talvez seja necessário melhorar o que temos, ou mesmo revertê-lo”.

Além disso Camões era um semiótico notável, uma vez que tendo só um olho a sua ótica fica só pela metade. Era uma semiótica. É claro que esta frase é igualmente abusiva do nosso maior vate e não devia ter sido incluída. Para dizer mais qualq uer coisa sobre o Camões, deveria ter acrescentado:

“Apesar de ser conhecido pela epopeia ‘Os Lusíadas’ a sua lírica é absolutamente notável, sendo do meu ponto de vista superior à de Shakespeare apesar de ser este último que abanava as peras ou as lanças”.

Devo confessar que esta sobre o bardo inglês também não é famosa para um comentador. Por um lado, é necessário saber inglês para reconhecer que shake é agitar ou abanar; pear é pera e spear é lança. Um comentador evoluído, do tipo 3.0 (outra piada que requer conhecimentos de informática) como Paulo Portas diria que Shakespeare

“É um bardo inglês que levou o teatro aos píncaros da genialidade. Repare (e aqui esticava o dedo) que todos os dramas humanos estão nas suas peças”.

É evidente que um comentador assim é do que precisa o país. E se os exemplos que aqui dou são com Camões ou Shakespeare, tal deve-se a não querer, para já, envolver a política nisto. Como sabem, comentador que é comentador é independente. Foi assim Marcelo, é assim Marques Mendes, será assim Paulo Portas. São independentes de qualquer opinião que lhes ponha a carreira em causa. Por isso não podem sair do mainstream (que é a corrente principal, ou seja sítio por onde vão os outros), pois caso contrário começam a desagradar e depois não têm votos suficientes para ganhar nas presidenciais a um génio que a esquerda acabou de descobrir (é o padrão, não matem o mensageiro).

Voltando a Paulo Portas direi que ele não tem qualquer objetivo político. O que ele pretende, tal como Pacheco Pereira, é pôr as pessoas a pensar. E confesso que Pacheco Pereira já me deixou muitas vezes a pensar… no seu caso (acho que isto também não deve ser dito por um comentador sério). Por isso Portas será a nova estrela deste firmamento. Do mesmo modo que, com o ‘Independente’ quis fazer melhor do que o Expresso e não conseguiu (o Expresso já tem um primeiro-ministro e um Presidente da República no currículo, sem contar com a hipótese do Prémio Nobel), agora quer fazer melhor do que Marcelo.

Duvido que o faça. Afinal, Portas não sabe dançar a marrabenta e isso é que é importante num Presidente da República… quer dizer num comentador da TVI ou noutro local qualquer.