Siga-nos

Perfil

Expresso

Em defesa da bicharada: o guincho, o latido e o miado têm cidadania

  • 333

A Coluna sempre modernaça e atirada para a frente como é esta vem defender que os animais domésticos devam entrar (e não ser barbaramente discriminados) nos restaurantes. Mas vamos mais longe do que o PAN (até porque o PAN não vai longe) e defendemos igualmente a sua entrada nos transportes públicos, repartições do Estado, cabinas de voto e no debate sobre a regionalização o TTIP e os transgénicos. É um escândalo que, estando a política cheia de animais incontroláveis e até ferozes, se continue a fazer esta espécie de apartheid

A próxima ação do Presidente Marcelo deverá ser pacificar nesta frente. Deseriçar o gato, passar a mão pelo cão, pelo pelo, claro, afagar o canário, sorrir para o hamster e deitar um olhar ternurento ao peixe de aquário farão parte das tarefas presidenciais. Ele vai ensinar-nos a vivemos pacificamente uns com os outros – e se não chegou ainda o momento do leão conviver com o cordeiro é porque o homem (e a mulher) com a sua maldade intrínseca impediu a salutar convivência desses dois mamíferos.

O animal doméstico deverá ser tratado como a Constituição exige e se a Constituição, por acaso, não exigir nada, exige-se que a Constituição passe a exigir que o animal seja tratado com dignidade e ter acesso aos bens essenciais. O Rendimento Social de Animalária, destinado à possibilidade da lata de Whiskas para gatos, de Royal Canine para cães ou de pistáchio e de osso de choco para o canário, não deve ser desprezado à partida. Bem sabemos que o Governo não tem dinheiro suficiente para acudir todas as maleitas do país, mas entre uma criança mal-educada, disposta a fazer bullying na escola e um gatinho daqueles que circulam nos Facebooks de gente tão ternurenta quanto solitária, ninguém pode ter dúvidas; escolhemos o gato.

Além do mais, se o Governo sempre atento, também ele, já estipulou um pecúlio descontável em impostos para o animal doméstico, é tempo de o registar devidamente. O cartão de cidadania da besta é uma imposição democrática a que se deve juntar o NAF (Número de Animal Fiscal) e respetivo cartão de eleitor (podemos usar tudo isto nos géneros que a Drª Catarina Martins entender). Ora posto isto, falta-lhe votar, coisa cuja possibilidade deve ser de imediato possibilitada. É natural que, de início sejam os donos a votar por eles, mas toda a democracia completa começou por ter um sistema de cacicagem que aos tempos vai passando.

Por isso juntemo-nos nesta vanguarda mundial da bicharada. Temos mais força do que o Fungagá do Barata Moura e do que uma manifestação a favor do fim das touradas na praça do Montijo.

O latido, o miado, o piado e o guincho serão reforçados no léxico político português e – mas importante – deixarão, nesta área, de ser exclusivos dos humanos.