Siga-nos

Perfil

Expresso

Um Dante Aligheri fiscal

  • 333

Esta coluna, que é culta como sei lá o quê, decidiu enviar dois grandes repórteres (Micael Pereira e Rui Araújo) investigar o paraíso fiscal do Panamá, onde andam à volta de 11,5 milhões de papéis; espera brevemente mandar um médio repórter ao Purgatório fiscal e já mandou um pequeno repórter ao Inferno Fiscal. A coisa foi inspirada na viagem que Dante Aligheri, Virgílio e a sua Beatriz fizeram na Divina Comédia, escrita pelo primeiro, obra em que se visitam todos estes locais. No livro, no entanto, a relação é com almas e não com impostos. (Aliás, as almas não pagam imposto… pelo menos por enquanto)

Segundo o nosso pequeno repórter, o Inferno fiscal, ao contrário do paraíso, não tem milhões de euros escondidos, nem nada disso. Os cidadãos que são vítimas dos tratos de polé deste Inferno também não têm bons carros, nem boas casas, nem coisas assim. O que fazem então? Por que razão colocam o seu dinheiro na Autoridade Tributária, que é o eufemismo que se utiliza para descrever o Inferno Fiscal? Basicamente são obrigados por um diabo chamado ministro das Finanças que trabalha ao serviço de um diabo maior chamado primeiro-ministro que, por sua vez, serve uma organização tenebrosa chamada Estado Despesista e Sem Controlo Nenhum do que Fazem ao Pecúlio do Pessoal (EDSCNFPP).

Mete dó olhar aquela fileira de tristes entregar um papel onde são obrigados a escrever tudo o que ganharam com o suor do rosto (ou doutra parte do corpo, porque eles não querem saber), para depois deixar quase metade disso ao Grande Diabo.

Para terdes uma ideia, entre 1990 e 2014 o dinheiro que o Grande Diabo arrecadou destes infelizes foi multiplicado por quatro. E, no entanto, as pessoas pagam tudo isto em locais lúgubres, onde por vezes esperam horas que os chamem. Os papéis que têm de entregar são de difícil compreensão. A palavra ‘tormento’ é a mais utilizada e, embora o nosso pequeno repórter não tenha assistido a provas de tortura física, descreve com pormenor a tortura psicológica e mental a que tal Autoridade os submete.

No meio da confusão, sempre há quem consiga suplicar por um paraíso, ou pelo menos por um purgatório (onde há muitos médicos, advogados e comerciantes vários que só declaram parte do que ganham). Raros, porém, atingem o paraíso, onde estão isentos de qualquer declaração, porque para tal é preciso ter bons advogados e estes quase só se encontram no purgatório. No Inferno, além dos Fiscais do Grande Diabo, a maioria ou não consegue passar daquela cepa torta que é ser TCO (trabalhador por conta de outrem) ou é palerma.

Infelizmente, pouco se discute o Inferno Fiscal. E embora o Paraíso do Panamá esteja a ser bem escrutinado, com nomes importantes a surgirem, no Inferno só há desgraçados. Nem um Presidente, nem um banqueiro, nem nada. E se acaso houver, é tratado como os outros. Uma senhora grita lá do guichet, ou carrega num botão em locais mais avançados tecnologicamente, e diz para avançar o 49. Este, toldado pela confusão dos papéis, sem planeamento fiscal nenhum, sem quem o ajude, deixa lá coiro e o cabelo.

Como dizia Dante a Virgílio, o melhor é pormo-nos a andar de ali para a fora.