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Expresso

Uma voz profunda e cava que falou a João Soares

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Coluna de estalo, esta, a de Alterne, não podia alhear-se do caso da bofetada. A política é madrasta (pelo que as bofetadas deviam ser aceites), mas é igualmente a arte do possível (pelo que as agressões devem ser feitas através de golpes baixos). Não sabendo de nada disto, uma vez que vem de círculos culturais que nada têm a ver com a política, o ministro que cessou funções no Palácio da Ajuda tomou a sua decisão do modo que se segue e é assaz estranho

João Soares ia no meio da rua, disposto a apanhar o metro a ver se encontrava alguém em quem bater, quando ouviu uma voz profunda e cava que o chamou pelo nome:

- João Soares! João Soares!

- Quem me fala – perguntou o, na altura, ainda ministro.

- Sou eu, o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob, de Moisés e de uma série de gente até chegar a ti que omito, para não passarmos aqui o dia.

- O Deus? Mas eu sou ateu! Ateu, maçon e outra coisa qualquer… ah… socialista! Como posso ouvir a voz de Deus?

- Tu és ateu, mas Eu não sou a-João Soares. Eu acredito na tua existência.

- Isso é fascinante. Quer dizer que mesmo sendo ateu tenho mais prorrogativas do que um católico?

- Não disse isso. Ora bolas, és mesmo político. Distorces tudo o que se diz.

- Não disse? Foi o que me pareceu. É que mesmo sendo ateu posso falar com Deus, coisa que a maioria dos católicos não faz.

- Pode ser que não precisem…

- Mas só fala com quem precisa?

- Mais ou menos!

- Com o Sócrates?

- Influenciei-o muito em diversos métodos, nomeadamente a maiêutica…

- Não é esse Sócrates, é o José Sócrates!

- O José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa? O que foi primeiro-ministro do teu país?

- Esse!

- Não, com ele não falo porque ele fala muito, não se cala.

- E de mim o que deseja?

- Quero que te demitas!

- Demitir-me? Porquê?

- Porque não devias ter ameaçado os cronistas Seabra e Valente. Aliás isso esteve quase a ser o 14º Mandamento daqueles: “Não ameaçarás o escriba, o cronista, o crítico e o vendedor de castanhas”.

- Mas isso não faz sentido!

- Quem és tu para dizer isso? Para ti nem a minha existência faz sentido. És ateu. Já pensaste que, sendo ateu, estás a falar com Deus? Ou então não estás e a falar com ninguém e estás maluco!

- Mas eu não quero demitir-me!

- Queres, queres, que eu vou obrigar-te. Ah! E o Costa também quer.

- O Costa? Mas fala com o Costa?

- Sim, através do Brahma.

- E se eu me recusar?

- É impossível, porque eu tenho mais poder do que tu e do que o Costa e até do que o Brahma.

- Mas eu não quero!

- Mau, mau! Ainda te dou duas bofetadas. Queres e é já!

E nisto apareceu um jornalista com um gravador e perguntou a João Soares se ele ia demitir-se. O ministro pensou em responder não, mas da sua boca não foi essa a frase que saiu, mas sim esta: “Torno público que apresentei esta manhã ao senhor primeiro-ministro, António Costa, a minha demissão do XXI Governo Constitucional. Faço-o por razões que têm a ver com a minha profunda solidariedade com o Governo e o primeiro-ministro, e o seu projeto político de esquerda”. Quando se ouviu a si próprio, nem queria acreditar que tinha dito aquilo. Não percebia sequer por que o tinha dito, até que ouviu uma gargalhada profunda e cava que lhe dizia:

- Viste?

Ao mesmo tempo, ouviu uma gargalhada mais aguda dada com muita vontade. E perguntou:

- É o Brahma?

- Não, aquele é mesmo o Costa. Disse que terias dado um grande ministro.