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Expresso

A um Deus desconhecido

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Gamei o título de um livro John Steinbeck, mas acuso já: a culpa é de Passos, Maria Luís Albuquerque, António Costa, Mário Centeno e mais uns tantos. O roubo que eu cometi, foi culpa deles! É assim uma trapalhada tipo Orçamento do Estado, para a qual esta sempre alerta Coluna de Alterne dá, como é seu timbre, uma solução viável (também damos palavras caras, se quiserem, mas escusamos de chegar ao ponto de ter de escrever exequível)

A ideia é rezarmos. A fé – dizem - move montanhas, pelo que é bem possível, direi até provável, que mova défices, sejam eles estruturais, primários ou one-off. É razoável que consiga transformar um Orçamento de esquisito, deficiente, marreco e maneta num documento alto e louro, espadaúdo e agradável. Não sei qual a vossa posição (nem me interessa, cada um tem a que quer ou consegue ter) mas eu gostava de ver Costa e Centeno chegarem a Bruxelas com um Orçamento todo pimpão, bem cheiroso, as contas devidamente polidas, sem arestas, sem subterfúgios, escusas ou reservas mentais. Enfim um orçamento de bons costumes e com algum de seu, poupado, com o seu pé-de-meia.

Dirão que com o país neste Estado é impossível tal coisa. Por considerar este argumento ponderoso é que me ocorreu o de rezarmos, apelarmos a uma entidade desconhecida que não nos deixe ir água abaixo numa torrente de críticas, numa enxurrada de enganos, num caudal de acusações. O problema, como já entenderam, é sabermos com precisão a quem devemos rezar.

É aqui que entra o Deus desconhecido. O título, como disse é gamado ao Steinbeck, mas a verdade é que ele foi buscá-lo à Bíblia, mais concretamente aos Atos dos Apóstolos, capítulo 17, versículos 22 e 23 onde se lê o seguinte: “E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos;
Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: Ao Deus Desconhecido. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio”.

Claro que Paulo anunciava o Deus agora mais conhecido da nossa gente. Mas temo que Esse, em matéria de Orçamentos se abstenha e não se queira meter entre Passos e Costa e ter de optar. Achei, pois, melhor rezarmos à DBRS (que significa Dominion Bond Rating Service) e que já estão a ver que é uma agência de notação ou de rating, como preferirem. Sendo desconhecida, é mesmo dela que dependemos. É o nosso Deus desconhecido, com sede em Toronto, província de Ontário, no Canadá.

Isto porque se a DBRS, o nosso Deus desconhecido nos baixa o rating um pontinho que seja, ficamos sem acesso à massa que o BCE manda. Porque o BCE só manda dinheiro a países que tenham nota positiva em pelo menos uma de quatro agências por ele acreditadas: a Fitch (onde estamos fichados há muito); a Standard & Poor’s (onde nos consideram demasiado poor) e a Moody’s (que também não está com modos cá com o pessoal). Por isso dependemos da DRBS, do Dominion, de Toronto, do Canadá. É para eles, como os muçulmanos para Meca, que devemos dirigir as nossas preces. Tanto mais que eles já ameaçaram.

A proposta de oração é a seguinte:

Ó DBRS, não sejas como as outras e dá-nos o que a gente merece (versão para a esquerda)

Ó DBRS, faz o jeitinho e mantém-nos na notação que a gente nem merece (versão para a direita)

Ó DBRS se nos mantiveres o dinheiro, a gente nunca mais te esquece (versão geral)

E agora não argumentem que não sabem o que é a DBRS, ok? É um Deus desconhecido. Sobre isso, falou São Paulo há 2000 anos e não tenho pretensões de o fazer melhor do que ele.