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Aquela cachimónia faz-nos muita falta. Irrevogavelmente

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Estou convencido, mas absolutamente convencido que não sobrevivemos sem o bestunto de Paulo Portas. Afinal, ele foi um grande político, um grande jornalista, um grande mentiroso e um grande amigo de todos nós (incluindo reformados, agricultores, jornalistas e políticos em geral). É uma desgraça que tenha de sair. Feliz será a empresa que o contrate, uma vez que, disseram-me, vai dedicar-se à vida empresarial

Pessoalmente, sou amigo de Portas, mas um amigo desinteressado. Isto é, não tenho interesse nenhum na sua amizade. Mas sou porque toda a gente é. Portas é como Coimbra – tem mais encanto na hora da despedida. Assim o seu encanto quintuplicou ou mais.

Portas começou por ser jotinha da JSD. Mas cedo se dedicou ao jornalismo criando um semanário, ‘O Independente’, do qual só sairia quando este vendesse mais um exemplar do que o Expresso. Isso não aconteceu, mas ele saiu à mesma, caso contrário ainda lá estaria.

De qualquer modo, ‘O Independente’ reforçou uma escola de jornalismo muito importante: a de fazer jornalismo sem fontes, ou só com uma; a de dar opiniões sem fontes, ou só com fontes anónimas que assassinavam o caráter de outros atores políticos. O próprio Portas, num momento lúcido, reconheceu mais tarde que aquilo era um projeto político. Na verdade ‘O Independente’ era, como jornal, um excelente projeto político e, como projeto político, um razoável e imaginativo jornal. Infelizmente, o jornalismo de Portas não era bem jornalismo. Era irrevogalismo!

Entretanto, já no CDS teve um tremendo trabalho, ainda hoje pouco reconhecido: Criar uma criatura, Manuel Monteiro, que se tornou líder da agremiação. Como sempre acontece, até nos livros de Robert Louis Stevenson, a criatura virou-se contra o criador, pelo que Portas viu-se obrigado a dar-lhe um ligeiro encontrão e firmar-se ele mesmo como líder.

Fez um acordo com Marcelo, que o tinha enganado, diz Portas, dizendo ter comido uma Vichyssoise que não existiu, mas a coisa não correu bem. Só mais tarde, com Passos Coelho, veio revelar-se o excelente político que todos hoje reconhecemos ao revogar uma decisão pessoal irrevogável.

No bolso de Passos Coelho, fez diversas coisas entre as quais várias que não me ocorrem. O mesmo acontece com as suas ideias: já foi anti-europeu, europeísta, democrata-cristão personalista, liberal popular, soberanista, lavourista, industrialista, vendedor de empresas no estrangeiro e tudo o que fosse necessário.

A sua capacidade de sobrevivência, como se viu depois de ter abandonado o CDS para sempre, e ter voltado à liderança dois anos depois correndo com Ribeiro e Castro, é dos grandes legados que deixa na escola política portuguesa. Portas, foi como político um grande jornalista, e até um grande mentiroso, como tinha sido um grande político, no tempo em que foi jornalista.

Aliás, basta ver-lhe o ar sério, o dedo em riste e a pose para perceber que ali temos homem! Que bem que ficaria em Belém! Podia, como Presidente, revelar-se um grande primeiro-ministro… ou outra coisa qualquer!