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Expresso

Luz e lata

Diogo Infante vai fazer de S. António e eu de peixinho sem sal

Diogo Infante

Pedro Soares

Fátima Pinheiro

O primeiro recital do Ciclo de Verão da Biblioteca Pública Municipal do Porto (28 e 29 de Junho) é o "Sermão de Santo António aos Peixes", do Padre António Vieira, dito por Diogo Infante. Impressionam as palavras de Vieira. É como se estivesse a falar para hoje. Para mim.  Do que gosto? E a que é que dou gosto? António é muito directo e pergunta o essencial: "O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?" Quem se der ao trabalho de ler a narrativa do Sermão não se vaii arrepender. Mas não é fast food. Eu, se puder, vou ao Porto, e não é pelos prémios que acaba de receber, e que são bem merecidos. Vou por causa do Douro e para dar mais um abraço ao Manoel de Olveira. Porque sim,  e não pelo filme "Palavra e Utopia" (2000), sobre Vieira. Sim, porque terrivel é a palavra NON: é vã glória de mandar.

Santo António, celebrado há dias, é uma figura da nossa cultura nem sempre reconhecida pelo seu valor intelectual. É geralmente associado às festas populares, aos casamentos, o santo popularucho. O que é muito bom. Mas é também fundamental reconhecer o seu outro lado. Um dia, um Professor da Católica, um franciscano de mão cheia, explicou-nos essa riqueza a conhecer, distinguindo Santo António de S. Francisco de Assis de uma forma que nunca mais esqueci. "S. Francisco é um pobre que agrada aos intelectuais, ao passo que S. António é um intelectual que agrada aos pobres".

O Ciclo de Verão que refiro apresenta um conjunto de recitais que ligam a música e a literatura, tendo por objectivo promover de forma inovadora a oferta pública de leitura e inserir a Biblioteca Pública Municipal na agenda cultural do Porto.

Deixo aqui o sermão, mas dito por Ary dos Santos. E, por escrito, o seu intelectual início : "Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!"