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Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Celebrar com champanhe

Escrevo isto em cima das primeiros resultados que dão a Emmanuel Macron mais de 60% dos votos e a Marine Le Pen menos de 40% dos votos. Macron será o próximo presidente da França. Na minha cartilha liberal, tão fora de moda, isto é a derrota de uma extrema-direita que via na filha de um fascista meio nazi a derradeira e ideal sucessora da linhagem populista. Na minha cartilha, isto é uma vitória da democracia e da sensatez, da racionalidade e da sensibilidade dos eleitores franceses. Estou contente. Na cauda do Brexit e de Trump, esta derrota de Le Pen pode significar a oportunidade, que esperemos não seja deitada fora, de reconstituir o projeto europeu com um novo pensamento e uma nova geração.

Macron será um presidente jovem, e tem isso a seu favor. Tem a seu desfavor os franceses que querem fazer de Le Pen a chefe titular da oposição, sobre as cinzas dos partidos tradicionais. Já percebemos que a senhora não é alheia ao golpe baixo, ao insulto e à batota, vimo-la na campanha e no debate com vitríolo, vimo-la na obscura relação financeira com um parlamento europeu que abomina e do qual recolhe as verbas e ajudas. Coerência não mora aqui, corrupção talvez.

Macron pode ser uma incógnita mas não tenho a opinião de que seja uma má incógnita. Ou uma ameaça. A sua figura inspira-me alguma simpatia, e sei que mudar a pesadíssima máquina burocrática da República é um trabalho de Hércules. Depois de François Hollande, Macron parece-me substancialmente melhor. Porque ninguém conseguiu ser pior nem mais corrosivo do socialismo francês.

O economista Yannis Varoufakis, um homem inteligente que não é um diplomata, nem faz favores, escreveu um texto no Guardian no qual defende Macron, que se bateu pela Grécia quando o país estava a ser humilhado e esquartejado por Sch:auble e pela austeridade. Sabendo que a esquerda detesta Macron pelas reformas que fez, Varoufakis reafirma a essência desta vitória. Ele é o que nos resta contra a subida perigosíssima de um movimento que destruíria não apenas a União Europeia. Destruiria a Europa e a ideia da Europa. E sabemos quantos monstros o nacionalismo e a xenofobia europeus podem gerar. Tantos quantos os do sono da Razão.

Devemos desejar que Macron seja bem sucedido porque Le Pen não merece apenas ser vencida. A sua força tóxica deve ser destruída. Celebremos com champanhe francês, como fazem todas as elites. A festa merece a indulgência.