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Rua Ternura

joão carlos santos

Ao longo desta semana, este espaço, preenchido habitualmente com as crónicas de Henrique Monteiro, acolhe uma série de artigos baseados em algumas histórias que a jornalista Lia Pereira tem ouvido nos transportes e locais públicos e que se tornaram muito populares no Facebook. Hoje publicados mais quatro destes “postais”, que ajudam a fazer um retrato de Portugal e dos portugueses

Lia Pereira

Lia Pereira

Texto

Jornalista

João Carlos Santos

João Carlos Santos

Ilustração

Fotojornalista

Estar na esplanada com amigos que têm bebés deslumbrantes atrai sempre comentários simpáticos e olhares curiosos. E depois há aquela senhora que, depois de se banquetear com uma imensa torrada na mesa ao lado, se despede com um ambíguo:

"São as melhores idades! Depois ficam assim, uns monstrinhos gordos!."

E lá se foi embora, com o monstrinho gordo e adulto que aparentemente era sua filha.

***

O cão entra resoluto pela pequena ourivesaria, parando no quartinho ao fundo da loja, expectante.

- É seu?, pergunto ao senhor que me ajuda a escolher uma prendinha para a minha afilhada.
- Não, quer uma bolacha!

Segue-se então um momento entre o inesperado e o ternurento, com o ourives a dar metade de uma bolacha ao cão que, impaciente, por esta altura já ladrava.

Admoestado pelo dono, lá volta à rua, rabo ruço a abanar, enquanto o senhor se explica mais um pouco:
- Eu costumo ter biscoitos para cão. Hoje não tinha, então tive de lhe dar uma bolacha Maria.
Quando chega aqui, às vezes faço de conta que não o vejo, e ele começa a dar-me com o focinho nas mãos. Se não fizer nada, põe-se a ladrar!

***

É domingo e está muito barulho no restaurante. Há quem celebre aniversários, quem junte a família, quem se reencontre com a família escolhida. Todos falam muito alto, quanto mais não seja para se tentarem ouvir uns aos outros. Quando, na nossa mesa, o bacalhau com broa e o cabrito já deram lugar aos cafés cheios, outra mesa recebe um bolo de chocolate com velas e irrompe num cântico animado. O aniversariante tem idade e semblante de avô e, revela-o a letra do “parabéns a você”, chama-se Augusto, como o meu pai. Um pouco por todo o restaurante, ainda caótico apesar de muitos almoços já estarem no fim, convivas que certamente não conhecem o senhor Augusto batem-lhe palmas. E com alguma emoção induzida por não mais do que uma garrafa pequena de água caramulo sinto que a minha mesa é a que aplaude mais bonito. Por isso são os meus. Parabéns a nós.

***
"Vou pôr aqui o Jorge ao pé dos santinhos", disse a velhinha sentada à mesa do café, preparando-se para esvaziar a carteira.

"Vamos para casa!", tentou ainda o seu velhote, mas a senhora – "estou farta de estar em casa"– insistia na remodelação. "Se os outros estão, porque é que o Jorge não há de estar... Diziam que era parecido comigo. Pronto, fica aqui com a Nossa Senhora... Coitadinho, aos 18 anos".

Não percebi se foi aos 18 anos que o Jorge partiu para junto dos santinhos, se foi com essa idade que o retrato, em que vestia uma camisola de uma equipa algarvia, foi tirado. Mas quando me vim embora, a senhora – e o seu resignado marido – ainda lá ficaram, de volta da pequenina foto a preto e branco prestes a ser realojada.