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Prenda de Dia do Pai

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ilustração joão carlos santos

Na ausência neste espaço, esta semana, das crónicas de Henrique Monteiro, publicamos uma série de artigos baseados em algumas das histórias que a jornalista Lia Pereira tem ouvido nos transportes públicos. Histórias que ajudam a fazer um retrato do país e dos portugueses

Lia Pereira

Lia Pereira

Texto

Jornalista

João Carlos Santos

João Carlos Santos

Ilustração

Fotojornalista

Digo o nome da minha rua e o taxista pergunta se não é perto da Gomes Pereira. Afinal, já trabalhou aqui perto. Na altura trabalhava em eletrónica, e ainda trabalha, só pega no táxi – que é de um amigo – à sexta e ao sábado, porque a filha está a fazer um doutoramento em Londres e a despesa é "impensável". Penso que deve ter sido pai cedo – visto do banco de trás, não me parece ter idade para ter uma filha de 27 anos (a que estuda em Londres, na área da biomedicina, e paga 700 euros por um quarto) e um de 32, professor de geografia, "mas esse fez tudo cá, veja lá, nem Erasmus quis fazer".

Venho a saber que tem 53 anos, e que em tempos idos, quando ia buscar o agora professor de geografia à escola, por vezes diziam: o menino que desça, que está aqui o irmão dele. "Eu tinha 22 anos, era assim magrito e tal".

Fazer de taxista à sexta e ao sábado ainda compensa, acredita, mas acarta perigos de ordem diversa – contou-me de gente que adormece no táxi, do rapaz que lhe vomitou o carro todo (100 euros pela limpeza e dois dias sem poder trabalhar), dos miúdos que o fizeram ir até ao Estoril, andar às voltas e parar numa rua sem saída ("e aposto que não tinham necessidade nenhuma disso; gastaram o dinheiro todo que tinham só para fazerem aquilo que não podem fazer em casa"). Também fiquei a saber de um estilista que foi da Moda Lisboa até casa, ali atrás das Amoreiras, e lhe deixou o táxi cheio de cascas de amendoins e outros petiscos que foi a comer, pedindo ainda o troco de 5 cêntimos. "Que eu lhe dei, claro, e também não tire ilações sobre essa pessoa, estou certo que não usará esta informação para outros efeitos".

A viagem não era assim tão longa, mas ainda deu para criticar os colegas taxistas, nomeadamente o que outro dia transportou uma senhora alemã do aeroporto ao centro da cidade, atravessando a Vasco da Gama e a 25 de Abril, a troco de 70 euros. Estes e outros comportamentos contribuem, acredita ele, para uma "caracterização objetiva" da classe que só prejudica os taxistas. Mas as coisas vão mudar, diz – daqui a dois ou três anos, com exames mais difíceis e outra exigência, será melhor e mais seguro andar de táxi.

Os filhos merecem sempre tudo, diz, e a filha deste senhor, depois de se doutorar em Londres, quer voltar para Portugal e trabalhar na Universidade de Aveiro. Quando voltar ainda o pai parecerá um jovem. Despeço-me com desejos de felicidades para todos, sentidos, e só ao chegar a casa me lembro que é uma história bonita para um dia do pai.