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Fresca terceira idade

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ilustração joão carlos santos

Mais uma série de pequenas histórias que a jornalista Lia Pereira ouviu em transportes e locais públicos, que publicámos ao longo desta semana neste espaço, ao qual regressará na segunda-feira a habitual crónica de Henrique Monteiro

Lia Pereira

Lia Pereira

texto

Jornalista

João Carlos Santos

João Carlos Santos

Ilustração

Fotojornalista

Começou por meter conversa por causa de um guarda-chuva abandonado ao canto da paragem, acabou a sentar-se ao meu lado e da transportadora do gato, que ia ao veterinário.

"Não, deixe estar, não tire. Até me dá jeito!", diz, apoiando o cotovelo na caixa.

"Mas está um bicho aí dentro...", aviso eu, timidamente.

"Ah, desculpe! Eu não lhe faço mal." E assim começou a senhora, de olhos azulíssimos e cabelo grisalho, a contar que não consegue respirar e que foi à farmácia (onde lhe passaram uns comprimidos), que tem três netos que não lhe ligam nenhuma, que eles até querem que ela vá "à terra" mas ela não vai (porquê?, pergunto, e ela faz o símbolo do dinheiro, esfregando os deditos), que no prédio há tão pouca gente que, se acontecer "o pior", nem tem para onde "fugir".
É viúva, penso eu, reparando nas duas alianças no anelar. "Eu agora vou à missa, tenho esta mania, de ir à missa todos os dias!", justifica-se com meio sorriso.
Quando saiu do autocarro, despediu-se com um jovial "até amanhã!" e "cá vou eu!", enquanto saltava para o passeio.
Acho que a frase que mais lhe ouvi, olhitos azuis muito vivos ainda, foi "porque eu não tenho ninguém".
***
No autocarro, duas senhoras falam animadamente das suas rotinas e esperam uma terceira, que entretanto aparece, saída do autocarro que seguia atrás deste.
- Estás bem?, pergunta a recém-chegada a uma delas.
- Mais ou menos..., responde ela sofrida.
- O pé?
- O pezinho até está bem, mas se não é o pé é outra coisa qualquer... Eu não sei que mal fiz a Deus para ter um castigo tão grande.
- Isso não é castigo tão grande!, insurge-se a outra senhora. Castigo grande era se tivesses uma doença incurável, e não tens!

***

"Qual é a coisa mais parecida com o ordenado mínimo português? É o período da mulher. Chega uma vez por mês, dura três ou quatro dias e..." – não ouço o resto porque o povo do autocarro irrompe em aplausos às piadas deste homem decrépito e com algum sangue no álcool, que faz uma ronda pelo autocarro a pedir esmola para depois continuar com o seu espetáculo.

***

Lições na paragem, logo pela manhãzinha: "Eu sou reformado há 41 anos e fumo há 84!", grita cheio de orgulho um velhote. "Mas é fumar tudo, todo o dia, não é cá fumar um bocado hoje e o resto na semana que vem...".

***

E se o dia começou com uma senhora que me pedia que lhe procurasse uns contactos no telefone, tudo indica que por não saber ler, termina com uma velhinha que, no supermercado, vai perguntando à funcionária quanto custa cada produto já registado. Primeiro saem uns rolos de cozinha, depois uma manga, por fim uma sopa de pacote, até a conta parar nos 11 euros. "É o fim do mês, não é?", pergunta paciente a moça da caixa, fingindo ignorar que o problema da senhora é mais estrutural que a data do calendário.

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    Mais uma das histórias que a jornalista Lia Pereira ouviu em transportes e locais públicos, que estamos a publicar ao longo da semana neste espaço, preenchido habitualmente com a crónica de Henrique Monteiro

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    Ao longo desta semana, este espaço, preenchido habitualmente com as crónicas de Henrique Monteiro, acolhe uma série de artigos baseados em algumas histórias que a jornalista Lia Pereira tem ouvido nos transportes e locais públicos e que se tornaram muito populares no Facebook. Hoje publicados mais quatro destes “postais”, que ajudam a fazer um retrato de Portugal e dos portugueses

  • Prenda de Dia do Pai

    Na ausência esta semana das crónicas de Henrique Monteiro no Expresso Diário, publicamos uma série de artigos baseados em algumas das histórias que a jornalista Lia Pereira tem ouvido nos transportes públicos. Histórias que ajudam a fazer um retrato do país e dos portugueses e que se tornaram virais no Facebook