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Fim de semana fora

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Ilustração joão carlos santos

Mais uma das histórias que a jornalista Lia Pereira ouviu em transportes e locais públicos, que estamos a publicar ao longo da semana neste espaço, preenchido habitualmente com a crónica de Henrique Monteiro

Lia Pereira

Lia Pereira

Texto

Jornalista

João Carlos Santos

João Carlos Santos

Ilustração

Fotojornalista

Chegam os dois, agasalhados ma non troppo, e pela mala de rodinhas que fazem deslizar atrás de si penso que são (turistas) estrangeiros, apesar do visual português q.b. Chego-me para ver os horários do autocarro, o senhor chega também, dá-me licença na língua de Camões e aqui começa uma das mais longas conversas que tenho tido nos transportes, nos últimos tempos.

Vieram, o senhor Mário e a esposa, a Lisboa de fim de semana e só têm elogios para distribuir, sobretudo à oferta cultural da cidade, na qual a senhora estudou "num colégio" até 1963. Perguntam se conheço a igreja de Madredeus e, depois de longa e exaltada descrição das suas belezas, passam a relatar as visitas à igreja de São Roque, ao Museu de Arte Antiga, à Gulbenkian e, num passeio anterior, até ao Bairro Alto. "Pensávamos que não, mas tem um ambiente muito agradável, cheio de casais, assim jovens como você!."

Casados há 46 anos, aproveitam a juventude da terceira idade – "agora que somos jovens!", ri-se a senhora – e os fins de semana em que não têm de tomar conta dos netos – "quando estamos desempregados!", mais risos – para passear. Nota-se que adoram Lisboa e a Gulbenkian, onde até viram uma rapariga, "com um mestrado em pintura", a reproduzir o quadro Mar da Noruega. "Parecia uma fotografia!", garante o senhor. "Eu tive de ir lá dar-lhe os parabéns", repete a mulher, claramente mais extrovertida.

Numa das outras visitas a Lisboa, contam divertidos, até andaram de tuc-tuc, ora se nunca tinham andado!, e hoje, antes de se cruzarem comigo na paragem do 712, tinham subido e descido a Avenida da Liberdade a pé ("deve ser um quilómetro, não?"). Ficaram num hotel na avenida, cuja moça da receção lhes garantiu que, "apesar de tudo", o António Costa fez um bom trabalho. No Porto gostam do presidente da câmara, mas acham que o vereador da cultura recentemente falecido lhe vai fazer falta. "Ele era muito dinâmico." A senhora também gostava que houvesse mais monumentos para visitar, embora elogie a animação das Galerias de Paris e a recente abertura ao público da igreja dos Clérigos.

Lisboa, aparentemente, é que lhes enche as medidas. Ainda sobre a Gulbenkian, delira a minha nova amiga: "Passámos lá uma manhã deliciosa! Fiquei deslumbrada com o movimento!." Contentes com o modesto passeio do 712 até Santa Apolónia ("sempre é um caminho que não conhecemos"), repararam nas laranjeiras carregadas de fruto nos Sapadores ("até admira que não as apanhem!") e lá seguiram, felizes da vida, para a estação, onde tinham comboio às 17h30.

Nas imortais palavras da minha avó, "ainda há gente boa em Lisboa", mesmo quando são de Espinho.

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