Siga-nos

Perfil

Expresso

Jogos natalícios

  • 333

Ao contrário das crianças, a maioria de nós não escreve listas ao “pai Natal” e nem pede dinheiro no sapatinho. Esta atitude, embora a mais eficiente do ponto de vista económico, subverte o espírito da quadra natalícia, enfatiza o consumismo relegando para segundo plano a pura troca de gratidão, amor e amizade.

Para os economistas, quer as listas, quer os vales de compra ou dinheiro são os presentes mais racionais e eficientes porque não só evitam a perda de valor característica das prendas “surpresa” como também criam valor. Ou seja, quando compramos um presente para nós mesmo a satisfação pessoal que retiramos do presente, quando traduzida em termos monetários, vale tanto ou mais do que o custo da compra. O mesmo já não é garantido quando oferecemos um presente a alguém. Cada euro gasto, cada minuto de tempo despendido a pensar no que comprar e a efetuar a compra pode não ser compensado pelo valor atribuído ao presente por quem o recebe. E basta pensar que cada um de nós já recebeu prendas que não gosta ou que não fazem falta, valendo-nos assim o talão de compra e as trocas nos dias seguintes. E desengane-se se pensa que a perda de valor é insignificante. Falando em números, o economista Joel Waldfogel, autor do livro “Scroogenomics”, estimou, em 2009, que 20% dos 65 biliões de dólares gastos em prendas natalícias foram mero valor perdido, ou seja, o equivalente a pagar 10 dólares por um vale de compras que vale apenas 8 dólares.

Mas uma mera análise custo-benefício da troca de presentes na quadra natalícia ignora a verdadeira função desta troca. As prendas que oferecemos servem o propósito de enviar a quem as recebe uma mensagem, o que na teoria de jogos, é chamado de sinal. Ou seja, as prendas que escolhemos e compramos por iniciativa própria, pretendem mostrar a quem as recebe não só que estamos dispostos a usar do nosso tempo e dinheiro para comprar um presente, mas que sabemos pensar no outro, nas suas preferências e vontades. Acertar no gosto alheio sinaliza quer o quanto conhecemos do outro, quer o quanto sabemos sair das nossas próprias escolhas e preferências para dar ao outro o que o outro gosta. Mais, esta mensagem ou sinal não apenas gera valor para quem recebe, como também para quem oferece.

Mas há mais “jogos estratégicos” que jogamos na quadra natalícia. Por exemplo, a troca de presentes pode servir como um investimento numa relação futura entre duas pessoas que, por razões várias, não têm uma relação de proximidade. Assim sendo, mesmo se quem recebe o presente não lhe der o devido valor, pode valorizar o esforço, o tempo e dinheiro gastos na sua aquisição, o que poderá contribuir positivamente para a relação entre os dois indivíduos. No entanto, quanto maior é a relação de proximidade entre duas pessoas, maior o risco em não acertar no gosto alheio. Neste caso, a destruição de valor é ainda maior, pois não oferecemos apenas algo que o outro não gosta, como geramos no outro sentimentos de deceção e desilusão que são tanto maiores quanto mais o outro nos oferece algo que nós gostamos.

A assimetria de informação e a impossibilidade de conhecermos bem as preferências de todos aqueles a quem oferecemos um presente gera ineficiência e perda de valor, mas esta assimetria assume ainda outra dimensão, sobretudo no caso de trocarmos presentes pela primeira vez com alguém. Ao contrário do que acontece com as prendas de aniversário, onde temos a possibilidade de tirar partido de uma troca sequencial e de aplicarmos um modelo mais recíproco, oferecendo ao outro algo de valor mais ou menos equivalente ao que nos foi oferecido, nas trocas natalícias, por serem trocas em geral simultâneas, isso é mais difícil. Considere-se, a título de exemplo, relações amorosas onde não tenha havido ainda uma troca de presentes, sendo por isso difícil saber qual o valor a gastar. O fundamental, não é gastar mais ou menos, mas tentar ao máximo coordenar o valor das trocas. A existência desta assimetria de informação é o que justifica a popularidade de jogos como o amigo oculto, ou a compra de presentes dentro de um determinado valor, que são depois distribuídos aleatoriamente.

Um outro exemplo onde o modelo de reciprocidade se aplica nesta quadra está relacionado com o envio de postais. Em geral, escrevemos a quem nos escreveu no ano anterior e adicionamos uns tantos “amigos” novos. Esta troca recíproca é hoje menos evidente com a Internet e o envio de mensagens cada vez mais gerais e impessoais do género “post” no mural do Facebook.

No fundo, a troca de presentes e cartões natalícios serve para enviarmos mensagens e sinais uns aos outros por forma a criar e fortalecer relações de confiança e reciprocidade, seja no local de trabalho, entre colegas em diversos níveis hierárquicos, seja no seio familiar, entre pais e filhos, seja nas escolas, entre professores, funcionários e alunos. Mais, está provado, que a confiança e a reciprocidade são dois ativos fundamentais para o desenvolvimento social e económico dos países. Sendo assim, não é tão certo que a perda de valor inerente às trocas natalícias seja assim tão grande. Mas, pelo sim, pelo não, ficam aqui algumas dicas, baseadas na economia e psicologia comportamentais, para potenciar o valor das suas prendas natalícias.

Primeiro, não assuma que o outro é semelhante a si, já que essa é a primeira tendência que temos, ao sofrermos do chamado efeito de falso consenso, ou seja sobrestimamos o número de pessoas que partilha dos mesmos valores, opiniões, crenças e gostos. Segundo, não projete o seus entusiasmo a comprar um presente para alguém no entusiasmo de quem o recebe, porque terá meio caminho andado para a desilusão. Por último, não tire conclusões precipitadas do valor das prendas que recebe. Receber ou dar uma prenda cara pode apenas servir como compensação pela falta de tempo que se tem para o outro. O custo da prenda poderá então servir para minimizar uma potencial sensação de culpa e entrar no novo ano de consciência limpa. Em suma, lembre-se, uma vez mais neste Natal, que menos por vezes é mais.