Nuno Vasconcellos, à beira de se tornar um dos maiores proprietários de comunicação social do país, não tinha qualquer expressão mediática antes da OPA da Sonaecom sobre a PT. E só se tornou conhecido quando, em meados de 2006, entra de rompante no capital da operadora, tornando-se um accionista de referência e colocando-se ao lado de Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, na luta contra Belmiro e Paulo de Azevedo.
Muito se especulou então sobre a proximidade da Ongoing - gestora de património da família Rocha dos Santos, constituída no início de 2006 - e o BES, principal accionista da PT. Sabe-se agora que o principal financiador do grupo, com origem na Sociedade Nacional de Sabões, foi afinal o BCP, que entre 2006 e 2008, concedeu empréstimos de €387 milhões. O grupo BES, com um empréstimo de €187 milhões, foi o segundo maior financiador. Mas a relação com o BES é forte: a Ongoing é accionista do Banco Espírito Santo e da ESFG (2,45%). E a ESAF, gestora de fundos do banco, colocou na carteira de fundos cerca de €54 milhões em obrigações e papel comercial, emitido pela Ongoing.
Foi para investir em empresas cotadas que se endividou. Além da PT (6,7%), a Ongoing é accionista da Zon (3,16%), BCP e Banif. Chegou, aliás, a envolver-se na guerra de poder travada no BCP, ao lado de Teixeira Pinto.
Balanço desequilibrado
O passivo de €831 milhões registado pela Ongoing em 2008 e conhecido esta semana veio revelar um balanço desequilibrado, segundo fontes financeiras. O relatório e contas revela que 97,28% do passivo, com cerca de €800 milhões em dívida à banca nacional e estrangeira, "é exigível no curto prazo". E mostra que a alteração foi rápida. Em 2007, os empréstimos de curto prazo ascendiam a 13,2 milhões, passando um ano depois para €584 milhões. Além disso, os dividendos oriundos das empresas onde participa - principal fonte de receita - caíram de €127,1 milhões para €9,2 milhões. O prejuízo da Ongoing, uma empresa de gestão de participações em outras sociedades, foi em 2008 de €66,2 milhões.
Vasconcellos sentiu-se desconfortável com a divulgação das contas, e garante que a Ongoing tem capacidade financeira para avançar, se for caso disso, para a compra da Media Capital, eventualmente até sem recurso a crédito. Afirma ter activos superiores a €1000 milhões, sublinha que renegociou este ano a dívida para prazos de cinco a dez anos, e diz que tem em caixa mais de ¤100 milhões para investir. Garante ainda que as participações financeiras do grupo valorizaram €130 milhões em 2009.
E se Ongoing comprar uma participação relevante na MC irá manter-se na Impresa? Vasconcellos acredita que poderá fazê-lo se não tiver representantes nos órgãos sociais de ambas. Tudo indica que a Ongoing não quer sair da empresa que Vasconcellos diz que o pai ajudou a fundar. Admite que não quer hostilizar Francisco Balsemão. Nesse sentido, se o preço for interessante, poderá sair.
Dívidas
584,7
milhões de euros é o valor dos principais empréstimos contraídos junto de bancos portugueses pela Ongoing. 387,5 milhões estavam no BCP e os restantes no BES. O dinheiro foi utilizado para comprar participações em empresas como a PT, Impresa ou BCP.
A este valor há ainda a somar 216,3 milhões devidos ao Crédit Suisse na sequência da compra de 22,5 milhões de acções da PT.
Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Agosto de 2009