Bateram com a cabeça na pedra?
O que aconteceu esta semana com todos os que nas semanas anteriores andaram a meter no mesmo saco a tragédia grega e a situação de Portugal? Caíram do cavalo e bateram com a cabeça numa pedra? É que, de um dia para o outro, aquilo que o ministro das Finanças e alguns esforçados escribas andavam a dizer - que nós não somos a Grécia - entrou nas duras cabecinhas dessa gente, do comissário europeu Joaquín Almunia às agências de rating e aos analistas que têm uma abóbora na cabeça e uma calculadora dentro dela. E não só entrou, como justificam agora porque é que mudaram de posição.
Por exemplo, o director-executivo da Fitch, Brian Coulton, merece ser convidado para almoçar em São Bento. Na verdade, o bom do Brian vem agora dizer algumas trivialidades elementares: que as comparações entre Portugal e a Grécia são demasiado simplistas. E porquê? Porque é que o rating de Portugal (AA) é significativamente mais elevado que o da Grécia (BB+)? Brian explica porquê: 1) o nível da dívida em Portugal é de 76,6% contra 113% na Grécia; 2) as derrapagens orçamentais em Portugal resultaram de erros de previsão, o que "é muito diferente de ter deliberadamente reportado mal o valor do défice, tal como aconteceu na Grécia"; 3) os problemas orçamentais portugueses estão de alguma forma relacionados com o fraco crescimento da economia, enquanto na Grécia se verificou um crescimento forte "e apesar disso houve um enorme desaire orçamental".
Não se sabia isto há quinze dias, há três semanas, há um mês? Sabia, sabia. Mas declarações dos senhores das agências, bem como do comissário Almunia levaram os juros da dívida pública portuguesa a disparar para valores que não são justificados, apesar de tudo, pela difícil situação que atravessamos - e a penalizar Portugal para lá do aceitável.
Agora a Fitch assume que a probabilidade de Portugal entrar em incumprimento com o pagamento da dívida é "próxima de zero". E a Moody's, que há uma semana nos declarava em "morte lenta", garante que Portugal e Espanha não precisam de ajuda para resolver os seus problemas, ao contrário do que se passa com a Grécia. Ora perante isto, como é que se justificam as declarações de Joaquín Almunia na semana passada, que provocaram uma tempestade nos mercados, lesando gravemente Portugal? Não se justificam. Por isso, é de saudar a posição do Conselho Económico e Social que, unanimemente, decidiu condenar tais declarações, pela voz do seu presidente, Silva Peneda; e a dos eurodeputados portugueses Diogo Feio e Elisa Ferreira que no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, verberaram também tais afirmações.
Mas houve mais: o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, disse aquilo que Almunia devia ter dito - que confia na capacidade de Portugal cumprir os seus compromissos e que a União actuará por forma a ajudar todos os seus membros a fazer o mesmo.
Bastou, aliás, começar a correr o rumor de que a União Europeia vai aprovar um plano para ajudar a Grécia a superar a sua crise orçamental e as declarações do novo comissário europeu para os Assuntos Económicos, Olli Rehn, falando na solidariedade com os Estados-membros, para os juros das obrigações públicas dos países sob fogo dos mercados caírem abruptamente. É isto que se espera da União: que defenda os seus Estados-membros quando estão sob ataque, dando esse sinal para os mercados, sem margem para qualquer dúvida. E, é claro, que esses países façam o trabalho de casa, quanto ao défice e quanto à dívida. Nós temos de o fazer - e vamos fazê-lo, como já o fizemos no passado.
A Galp não percebe nada
A Galp assinou a 18 de Dezembro de 2009 um contrato com a empresa espanhola Tecnicas Reunidas para o projecto de conversão da refinaria de Sines. O contrato tem um valor de €1080 milhões e dará origem à subcontratação de diversas empresas para os trabalhos a desenvolver.
Como é óbvio, a Tecnicas Reunidas deve ter sido a empresa que melhores condições ofereceu à Galp para executar a obra. Tudo bem? Não necessariamente, porque o Estado português detém uma golden share na Galp e porque do investimento total, 200 milhões são fundos públicos. Por isso, devia ser obrigatório que um projecto deste tipo desse uma oportunidade às empresas portuguesas. Não é, contudo, o que acontece. A Tecnicas Reunidas decide em Madrid as empresas a subcontratar. Como especialista nesta área, a Tecnicas Reunidas conhece a maior parte dos grandes fornecedores internacionais e os espanhóis - mas desconhece quem são as empresas portuguesas potenciais fornecedoras, que perdem a oportunidade de crescer e ganhar competências, num projecto em que um quinto é financiado com dinheiro dos contribuintes nacionais.
É isto que a Galp não percebe - mas que o Estado lhe devia fazer perceber.
A Cimpor não fica cá
A profunda alteração accionista em curso na Cimpor conheceu esta semana uma surpreendente reviravolta quando a Camargo Côrrea chegou a acordo para comprar a participação da Teixeira Duarte na cimenteira, depois de outra construtora brasileira, a Votorantim, ter adquirido a posição dos franceses da Lafarge, e assinado um acordo parassocial com a Caixa Geral de Depósitos. E assim mil milhões de euros levaram a Teixeira Duarte a abrir mão do que até há pouco era um activo estratégico.
Contudo, nada está ainda resolvido. A CSN pode subir o valor que ofereceu na OPA; Manuel Fino está certamente a ser aliciado pelas três construtoras brasileiras para recomprar os seus 9,6% à Caixa e vendê-los a um dos interessados; a Caixa, que na semana passada parecia ter dado um passo importante para manter a Cimpor em mãos nacionais ao fazer um acordo parassocial com a Votorantim, vê agora esse desiderato em causa; e a instabilidade accionista causada pelos diferendos Teixeira Duarte/Manuel Fino pode agora regressar por via do confronto entre as construtoras brasileiras.
Uma coisa, infelizmente, parece certa: a Cimpor vai deixar de ser um centro de decisão nacional. E tudo porque em Portugal há quem se diga capitalista sem ter capital e que, mesmo perante essa evidência, não consiga fazer alianças accionistas.
O jornalismo não é para meninas
Dizer que a liberdade de expressão está em causa em Portugal é um insulto para milhares de pessoas que, durante quarenta anos, pagaram com a falta de liberdade as suas opiniões. E é uma contradição: é por não haver falta de liberdade de expressão que se conhecem todas as conspirações possíveis e imaginárias que o actual poder concebeu. Todos os poderes - Governo, oposição, bancos, grandes empresas, associações ambientalistas e de consumidores, etc. - tentam condicionar, manipular, controlar a comunicação social. A isto resiste-se com patrões que sabem que credibilidade e independência económica são fundamentais; e com directores e redacções que não se curvam aos ditames dos ditadorzinhos que pululam em todas as áreas da sociedade. O jornalismo não é para meninas mas para homens e mulheres que sabem que a sua mais nobre missão é a de escrutinar todos os poderes - e que não recuam nem se queixam perante a gritaria e a ameaça.
"O português é hoje um expatriadono seu próprio país.
Somos uma nação, não uma pátria;
somos um agregado humano
sem aquela alma colectiva
que constitui uma Pátria.
Somos... Sei lá o que nós somos?
Sabe alguém o que nós somos,
salvo o lugar por onde
um cataclismo vai passar?"
Fernando Pessoa, Carta a um Herói Estúpido, 1915
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010


