Nos últimos anos, as salas de aula das escolas portuguesas encheram-se de computadores Magalhães, portáteis, quadros interativos e modems a permitir ligações rápidas à Internet. O Governo apostou forte na modernização tecnológica para ajudar a melhorar os resultados dos alunos. Mas um estudo apresentado publicamente na semana passada vem mostrar que a disseminação da banda larga nos establelecimentos de ensino teve como consequência imediata precisamente o contrário.
Em média, as notas nos exames nacionais do 9.º ano diminuíram 8,3% entre 2005 e 2008 por causa da utilização da Internet. E o impacto negativo fez-se sentir tanto na prova de Matemática como de Português e em todo o tipo de escolas, independentemente dos seus resultados anteriores.
"As escolas que viram a sua média descer ou subir menos do que a média global dos exames do 9.º ano são tipicamente as que mais usaram a Internet", diz Rodrigo Belo, co-autor do estudo "The Effects of Broadband in Schools: Evidence from Portugal", realizado ainda por Pedro Ferreira e Rahul Telang.
Os investigadores - do Instituto Superior Técnico, Universidade Católica e Carnegie Mellon University - sublinham que o estudo não mede os eventuais impactos positivos do acesso generalizado aos computadores e à Internet na vida futura dos alunos e apenas alerta para o facto de o acesso às novas tecnologias não garantir, por si só, uma melhoria dos desempenhos.
Estudar vs. jogar
O problema, explicam, é que a Internet tanto pode ser usada como um recurso útil no ensino, mas também pode servir como fator de distração se o seu uso não for devidamente controlado. Quanto mais fácil for para os alunos jogar, ver vídeos no YouTube, conversar no Hi5 ou no Facebook, menos tempo poderão dedicar ao estudo.
Mais grave ainda: "Sem uma monitorização apropriada, o acesso à banda larga em escolas com piores resultados pode ser mais prejudicial do que útil, levando ao agravamento do fosso", lê-se no trabalho.
O estudo indica, no entanto, que os efeitos negativos do uso da banda larga nos resultados dos exames nacionais do 9º ano parecem diluir-se ao longo do tempo. Ou seja, se entre 2005 - data a partir da qual se universalizou a banda larga nas escolas portuguesas - e 2008 se registou uma diminuição nas notas de 8,3%, o impacto já não é tão negativo se a evolução for medida entre 2005 e 2009: redução de 7,3% (segundo os dados mais atualizados apurados no estudo).
Fase de adaptação
Com tantas investigações e estudos internacionais sobre o impacto das novas tecnologias no ensino a chegarem a conclusões para todos os gostos, Rodrigo Belo assume que é preciso "aprofundar o conhecimento sobre estes efeitos", nomeadamente perceber que tipo de utilização de Internet está a ser feita, dentro e fora das salas de aula.
Além disso, há que contar com o fator adaptação. "Sempre que aparece uma nova tecnologia, a sociedade leva algum tempo a adaptar-se. Pode ser que o que estamos a observar é exatamente essa fase", refere Rodrigo Belo.
Seja como for, o investigador lembra que este é o primeiro estudo que avalia o efeito da utilização da banda larga (medida em bytes) no desempenho dos alunos e não apenas o efeito do investimento financeiro em tecnologia. A amostra foi de 628 escolas públicas.