Bancarrota portuguesa: da "morte lenta" à dívida "lixo"
A 7 de julho o custo dos credit default swaps (cds, derivados financeiros que funcionam como seguros contra o risco de incumprimento) ligados à dívida soberana portuguesa ultrapassou o limiar dos 1000 pontos base, fixando um máximo de valor de fecho em 1023,63 pontos base. No dia seguinte, fechando a semana, atingiu 1087,53 pontos base.
Convém recordar o filme da evolução do custo dos cds e da probabilidade de default a ele associado.
Segundo dados da CMA DataVision, podemos reconstruir o filme referindo os dados relativos ao primeiro e último trimestres desde 2009.
Curiosamente, o filme começa com a Moody's a decretar a "morte lenta" de Portugal e chega ao atual intervalo com a mesma Moody's a classificar a dívida portuguesa de "especulativa" (vulgo nos mercados, junk status, "lixo").
1º trimestre de 2009: o risco de default finalizou em 11,7%, o custo dos cds fecharam em 139,6 pontos base, e Portugal ocupava o 25º lugar no ranking dos países com maior probabilidade de entrar em incumprimento.
4º trimestre de 2009: o risco baixou para 6,2%, o custo dos cds contraiu-se significativamente para 74 pontos base, e Portugal desceu substancialmente para 47º lugar no ranking. Nada faria, aparentemente, prever a tormenta que se desencadearia no ano seguinte.
1º trimestre de 2010: o risco subiu de novo para 11,7%, o custo dos cds estava em 139,6 pontos base e Portugal subiu para 26º lugar, uma situação quase similar à do início de 2009. Neste trimestre, a Moody's a 13 de janeiro veio falar da "morte lenta" da Grécia e de Portugal, amalgamando as duas situações, apesar da Grécia ter 25% de risco e estar em 9º lugar no ranking.
4º trimestre de 2010: o risco continuou a subir e fixou-se em 35,9%, o custo dos cds aumentou para 497,3 pontos base, e Portugal galgou 22 lugares no ranking, posicionando-se em 4º lugar (depois da Grécia, Venezuela e Irlanda).
1º trimestre de 2011: o risco prosseguiu a subida até 40,1%, o custo dos cds passou para 578,6 pontos base, e Portugal conservou o 4º lugar no ranking.
A 8 de julho, já depois da assinatura do memorando de entendimento com a troika em maio, o risco de default fechou em 59,07%, o custo dos cds em 1087,53 pontos base, e Portugal conserva o 2º lugar do ranking, a que chegou esta semana. Nesta primeira semana de julho, a Moody's classificou a dívida portuguesa como "especulativa" (junk status, na gíria, ou seja "lixo").
No espaço de dois anos e meio, o custo dos cds multiplicou por 7 vezes e a probabilidade de default aumentou mais de 47 pontos percentuais, ou seja multiplicou por mais de 5.



