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11 ANOS MAIS TARDE

Avatar! O Milagre de James Cameron.

Numa indústria apinhada de egos sobrestimados é fácil compreender que o novo filme de James Cameron, "Avatar", tenha ganho foros de soro milagroso. Estou mesmo a ver a frase na campanha publicitária. Avatar: It Cures Cancer. A estreia foi fixada pela Fox para 18 de Dezembro, no momento exacto em que os estúdios estreiam nas salas os candidatos ao óscar e a um lugar na História do Cinema.
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A diferença entre esta história e todas as outras tem a ver com o painel físico-químico composto por duas personalidades muito fortes que não conseguem pensar senão em termos gigantescos: James Cameron, realizador e explorador, e Rupert Murdoch, multibilionário com tentações de Big Brother. Mas vamos, primeiro, ao (pouco) que se sabe sobre o filme "Avatar".

1) É sobre um soldado estropiado que usa o corpo de um alien para poder participar num mundo rápido mais evoluido, noutra galáxia mas ainda vulnerável à consciência humana.

2) Só pôde ser feito agora porque Cameron esteve a desenvolver um novo virtual camera system.

3) Custou mais de 200 milhões de dólares.

4) Terá de ser visto em cinemas com aparato 3D. Vão ser necessários óculos adequados.

5) Apresenta um avanço tecnológico tal que o cinema irá finalmente superar o chamado uncanny valley, aquela área de credibilidade improvável que até agora, por os efeitos especiais disponíveis não serem totalmente realistas, cria no espectador uma reacção de separação face ao que vê no ecrã. Um jornalista da Time que teve acesso à experiência de ver uma parte do filme em condições ideais disse que a sensação foi idêntica à de descobrir uma nova droga.

6) Dará ao realizador um estatuto de Thomas Edison cruzado com Kubrick, visionário e inventor da nova tecnologia que possibilitou um salto qualitativo parecido com o momento em que os filmes passaram a ter som. Desta vez o espectador sente na pele. Passa  a fazer parte da história. Resultado? Investimento emocional que mais nenhuma outra peça de entretenimento oferece.

Que fazer com isto? Especular. A Fox pertence ao Rupert Murdoch, titã da comunicação social que está no topo da tabela de audiências televisivas, isto quando não anda a abocanhar impérios jornalísticos tradicionais como o Times de Londres e o Wall Street Journal em Nova Iorque. Murdoch está casado com uma esposa chinesa e tem, perto de Sydney, os seus estúdios de cinema ocupados em produções fabulosas. O "Wolverine", também da Fox, foi feito em Sydney em parte com os favores fiscais oferecidos pelo governo australiano (estreado na sexta, superou os custos em apenas três dias de exibição, ao som de 160 milhões de dólares).

E James Cameron é, na questão dos números, o líder da invenção que não mostra o talento de cineasta desde 1997, quando o seu "Titanic" estabeleceu recordes de bilheteira invencíveis ainda hoje. Que tem feito o grande génio solitário desde então? Muita coisa. Televisão, por exemplo, para a qual criou a série "Dark Angel". Esteve bastante envolvido nos sucessos do "Spider Man", autêntica cash cow da Sony Columbia. Ou seja, o homem tem dinheiro. E acho que, por causa disso, de vez em quando se mete num submarino e vai infiltrar-se nas profundezas oceânicas. (Refrão com todos em uníssono: puxa que o gajo não pára enquanto não se vê submerso na imagem!) Fora isto, Cameron mantem-se candidato ao prémio Hit or Miss. Se o "True Lies" pode ser verdadeiramente um martírio, há muita coisa que tem sobrevivido aos tempos. Os dois "Terminator" continuam revelantes. O Rambo tem um interesse arqueológico, porque faz bem revisitar o antigo heroísmo americano. Dá perspectiva. E que bom foi ver James Cameron dar um pontapé nos fundilhos do intelectualismo europeu, cool como o caraças no "Alien" de Ridley Scott mas bastante mais urgente e bélico no seu "Aliens". Desde o início Cameron soube inverter géneros e tornar tudo maior sem nunca esquecer o melodrama. Num lado e noutro, o universo que nos apresenta é tão invencível como a determinação humana. Não é por acaso que o homem é conhecido em Hollywood por Iron Jim. Claro que também falha. "O Abismo"? Ainda hoje fica a impressão que Cameron quis ser king of the world mas acabou por produzir apenas tecnologia e mensagem espiritual-ambiental digna de ser vista, não num cinema, mas na loja dos 300. Seja como for. O homem quer ser visionário, por vezes até é, parece que não sabe muito bem a diferença entre estar interessado e estar obcecado, e, este ano, vai aparecer finalmente com um filme. Não é pedir muito: abram alas! 

Mas, se calhar, é mesmo como as pessoas dizem: o cinema está cada vez mais uma droga. Nesse caso, que bom ter James Cameron como pusher. Quem sabe se não é por isso, pela crescente dependência que vamos criando face à imagem, que toda a gente em Hollywood anda ansiosa por sentir o novo salto tecnológico, sensorial e de vendas que anda a ser preparado pelo realizador num hangar meio abandonado aqui em Los Angeles. Por enquanto a espera é intensa. Vai ser difícil o filme corresponder às expectativas, uma espécie de abismo inevitável no qual já tropeçaram os melhores. Mas também pode ser que cameron triunfe novamente. da última vez que veio mostrar os trabalhos de casa, olhem, levou debaixo do braço 11 óscares. Foi há 11 anos.


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