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Autárquicas 2017

Autárquicas 2017

Vencedores e vencidos de uma noite atípica

ilustração tiago pereira santos

Medina teve uma vitória "poucochinha" (no léxico de António Costa). Costa teve uma vitória histórica. Passos morreu e Jerónimo perdeu. Cristas leva a taça Revelação. E Isaltino voltou absoluto. Surpresas de vencedores e vencidos

Ângela Silva

Ângela Silva

texto

Jornalista

Vencedores

jose carlos carvalho

António Costa

Basta olhar para o mapa com a geografia dos resultados: a mancha cor de rosa alastrou. António Costa é o grande vencedor destas autárquicas e o PS ganhou em todos os critérios de análise das eleições locais. Teve mais câmaras (saltou das 150 de há quatro anos para 166); teve mais votos (relativamente a 2013, duplicou de 100 para 200 mil a vantagem face à direita); ganhou em 10 das 17 câmaras mais populosas; e subiu de 32,8% para 39,07% em votação global face às legislativas. Costa pediu "mais força para o PS" e conseguiu: o PCP (que perdeu poder) e o BE (que pouco ganhou) deixaram a taça para Costa. A geringonça rende, sobretudo, para este lado.

tiago miranda

Assunção Cristas

Revelou-se um furacão em campanha e provou que correr por gosto, trabalhar no duro e arriscar, compensa. A líder do CDS triplicou o resultado de Paulo Portas e acabou em 2º lugar na maior câmara do país com 20,5% de votos. É uma revolução para a direita: se daqui a quatro anos quiserem coligar-se, quem comanda a negociação já não será o PSD, será o CDS. Pena Passos Coelho não ter pensado em coligar-se desta vez. Talvez Cristas o tivesse ajudado a sobreviver politicamente.

rui duarte silva

Rui Moreira

Contra as sondagens que chegaram a dá-lo empatado com o socialista Manuel Pizarro, Moreira venceu o Porto com uma maioria absoluta de 44,46% de votos. Nem o caso Selminho, nem a rutura com o PS, nem a falta de apoio do PSD (que preferiu apostar num desconhecido) evitaram que o Porto lhe desse um novo voto de confiança. Rui Moreira ganhou contra quase todos. E mais independente do que nunca.

Isaltino Morais

Saber se um ex-recluso, condenado a sete anos de prisão e a perda de mandato por fraude fiscal, abuso de poder e corrupção passiva para ato ilícito e branqueamento de capitais, pode voltar a candidatar-se a presidente de uma câmara é um tema que fica para discussão. Mas o eleitorado não teve dúvidas e reelegeu Isaltino Morais com maioria absoluta. O autarca de Oeiras foi, além do mais, o único dinossauro a sobreviver nestas autárquicas.

Fernando Medina

O adeus à maioria absoluta fez da vitória de Fernando Medina em Lisboa um resultado bom mas "poucochinho", como diria António Costa, que aliás usou o conceito na disputa que viveu com Seguro dentro do PS quando lhe disse "quem ganha por poucochinho é capaz de poucochinho". Medina viveu a noite em euforia, sem saber a real dimensão da vitória. Manteve a câmara com 42,02% dos votos. E continuará a olear o espírito da geringonça na capital.

josé caria

Inês Medeiros

Candidata do PS a Almada, conseguiu o que ninguém achou plausível: ganhar a câmara ao PCP. Inexperiente nas lides autárquicas, Inês Medeiros talvez pudesse replicar a frase de Fernando Seara quando, ao ganhar Sintra pela primeira vez, confessou só se ter candidatado por não acreditar na vitória. Inês fica para a história destas eleições por ter protagonizado um rombo traumático para um dos parceiros de Costa na geringonça. Sem maioria absoluta, tentar replicar a experiência na margem sul.

Adolfo Mesquita Nunes

O ex-secretário de Estado da AD arriscou candidatar-se à Câmara da Covilhã - que o PSD liderou durante anos com Carlos Pinto - e conseguiu 15% de votos, o dobro do resultado dos sociais-democratas que, também aqui, deixaram fugir o seu dinossauro local para uma candidatura independente. O CDS percebeu a oportunidade, Mesquita Nunes fez uma campanha de terreno à Cristas e ganhou a aposta. Passaram a segunda força política na Covilhã.

tiago petinga/lusa

Basílio Horta

Há quatro anos venceu por pouco a Marco Almeida, o ex-PSD que o partido deixou fugir para uma candidatura independente. Mas desta vez, com Marco Almeida de regresso ao partido de origem, Basílio manteve Sintra com maioria absoluta. A 14 pontos de vantagem do seu mais direto rival.

Perdedores

Passos Coelho

A derrota foi tal que o seu lugar na liderança do PSD ficou em causa. O partido perdeu votos, câmaras e mandatos. Ficou em terceiro lugar em Lisboa e no Porto. Pior era difícil. Passos reconheceu a derrota histórica, não se demitiu mas prometeu refletir se tem condições de se candidatar a primeiro-ministro. E, tirando cálculos e táticas, o partido acha que não. As escolhas nas duas maiores cidades foram da sua responsabilidade. A estratégia falhou. Os barões já lhe apontaram a porta de saída. Dois anos depois de ter ganho as legislativas pós-resgate, Pedro Passos Coelho foi derrotado por António Costa. E prepara-se para sair de cena.

joão relvas/lusa

Jerónimo de Sousa

Perder nove câmaras para o PS (e uma para um independente) é a prova de que os comunistas não ganharam com o negócio da geringonça. O PCP cheirou o risco mas o rombo ultrapassou todas as expetativas - perder Almada, uma câmara de sempre, para a inexperiente Inês Medeiros, é traumático. Jerónimo de Sousa assumiu a derrota. Resta saber que consequências terão estas autárquicas no acordo com o PS e o BE até ao final da legislatura. E que consequências para o próprio Jerónimo dentro do partido.

manuel de almeida/lusa

Teresa Leal Coelho

Amiga de Passos, aceitou o que sabia ser uma missão impossível. Mas cumpriu-a sem alma. Teresa Leal Coelho entrou tarde na corrida a Lisboa, quase passou despercebida no confronto com o furacão Assunção Cristas, sofreu com a divisão instalada no PSD local, e nunca conseguiu dar a volta. Acaba com o pior resultado do partido na capital (11,23%), atrás do CDS e quase atrás do PCP. Inglória total.

Dinossauros

Ao contrário de Isaltino Morais, nem Valentim Loureiro em Gondomar, nem Narciso Miranda em Matosinhos, conseguiram voltar à presidência das respetivas câmaras. A tendência foi, aliás, de perda para o regresso dos dinossauros - dos oito mais conhecidos que se candidataram este ano, fosse Fernando Seara em Odivelas ou Fernando Costa em Leiria, só Isaltino foi eleito. Regressar não está fácil.

Carlos Carreiras

Reconquistou Cascais com maioria absoluta mas teve a vitória nublada pelo desaire do seu partido a nível nacional. Como coordenador autárquico do PSD, Carlos Carreiras é co-responsável de uma estratégia que falhou em toda a linha. Se é justo reconhecer que parte das culpas cabem ao líder do partido, Carreiras é, inevitavelmente, um dos rostos da derrota "laranjinha" de domingo.