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Autárquicas 2017

Autárquicas 2017

Anatomia de um massacre autoinflingido

luís barra

Processos polémicos, candidatos fracos, escolhas ao lado, erros de perceção. As responsabilidades de Pedro Passos Coelho e da sua direção no desaire do PSD, explicadas com casos concretos

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

“Tudo indica que teremos tido um dos piores resultados de sempre do PSD”, admitiu Pedro Passos Coelho na noite de domingo, diluindo o pior resultado de sempre do PSD na fórmula “um dos”. Não foi “um dos”. Foi mesmo “o” pior resultado de sempre para os sociais-democratas. Hecatombe, descalabro, arraso, terramoto, tsunami são as palavras que têm servido para ilustrar a pior noite autárquica da história do partido. Manuela Ferreira Leite, que no domingo à noite estava “chocada e atónita”, falou esta segunda-feira numa “noite negra para esquecer”. E acrescentou, à TSF, que a derrota “tem um rosto, que é muito menos dos candidatos e muito mais da estratégia que tem estado a ser seguida na oposição”.

São muitos os exemplos concretos de como os erros diretos de Pedro Passos Coelho, ou permitidos por este, ao dar carta branca ao coordenador autárquico Carlos Carreiras, contribuíram para que o líder do PSD acabasse a noite a dizer que “os objetivos” ficaram “longe de alcançados”. Das grandes “montras” nacionais que são as câmaras de Lisboa e Porto, até pequenos municípios como Pedrógão Grande, da ambição falhada de conquistar uma capital de distrito à incapacidade de segurar um bastião tradicional da social-democracia, o massacre autoinflingido deste domingo fez-se de processos polémicos, escolhas erradas, tiros ao lado, erros de perceção e, claro, muito desgaste de Pedro Passos Coelho.

Lisboa

Vinte e oito mil votos, 11,23%, dois vereadores, tantos como o PCP. É o espólio da candidatura de Teresa Leal Coelho, escolha pessoal de Passos, depois de uma novela em que foram sondadas muitas personalidades, todas como solução de recurso depois da recusa de Pedro Santana Lopes. O primeiro erro de Passos foi esse - acreditou mesmo que Santana poderia trocar a segurança da Santa Casa da Misericórdia pelo risco de desafiar Fernando Medina. Em abono da verdade, o suspense foi alimentado pelo próprio Santana; sem alternativa melhor, Passos deixou-se levar no “keep cool” do ex-enfant que voltou a ser terrible. Isto, enquanto Assunção Cristas lhe estendia a mão para que o PSD a apoiasse numa coligação. O então líder distrital, Miguel Pinto Luz, estava disposto a apoiar Cristas, o então líder concelhio, Mauro Xavier, preferia José Eduardo Martins, mas no final estava disposto também a coligar-se com o CDS, mas Passos foi queimando todas as hipóteses. No fim, sobrou apenas Leal Coelho - a candidata que nem a distrital, nem a concelhia, nem a máquina local queriam. Teresa, que durante quatro anos como vereadora da oposição quase não existiu, continuou a quase não existir como candidata. Até ser tarde demais. A medida da rejeição da candidata escolhida a dedo por Passos está patente nos resultados. A pior votação do PSD em Lisboa é para a câmara municipal, onde a candidata era Teresa. José Eduardo Martins, que foi cabeça de lista à Assembleia Municipal, teve mais dez mil votos do que Leal Coelho (os 10 mil votos que Martins tem a mais quase coincidem com os 11 mil votos que Helena Roseta, a candidata do PS à Assembleia Municipal, teve abaixo de Medina…). E nas votações para as freguesias de Lisboa, o PSD teve mais 17 mil votos do que para a câmara.

Porto

O plano A do PSD seria apoiar desde cedo a recandidatura de Rui Moreira, juntando-se ao CDS, que logo no início de 2016 marcou presença ao lado ao autarca do Porto. Passos não o quis, e não apreciou a forma como Cristas se antecipou (na verdade, previsível, pois o CDS já apoiara Moreira em 2013). O líder do PSD chegou a sonhar que o CDS poderia abandonar Moreira, para apoiar o candidato social-democrata ao Porto (que Passos ainda não sabia quem seria), mas Cristas nem quis ouvir falar nisso. De hipótese em hipótese, o PSD acabou por desembocar no quase desconhecido (e ainda hoje quase desconhecido) Álvaro Almeida. Tal como em Lisboa, a lista para a Assembleia Municipal teve como primeiro nome um crítico de Passos - Pedro Duarte. E, tal como em Lisboa, o social-democrata desalinhado saiu-se um bocadinho melhor do que o candidato oficial do passismo. Duarte recolheu 15 mil votos; Álvaro Almeida apenas 11.952 (10,3%, só um vereador, tantos quanto o PCP).

Sintra

Há quatro anos, Marco Almeida quase chegava a presidente da câmara de Sintra - Basílio Horta, do PS, ganhou com 26,8%, o candidato independente ficou-se pelos 25,4%. Mil e setecentos votos ditaram o desfecho. Almeida, então militante do PSD e ex-número dois do executivo de Fernando Seara, só avançou como independente porque se precipitou, candidatou-se antes de ter luz verde do PSD, e o PSD lhe puxou o tapete. Pedro Pinto representou o laranja oficial, não passou dos 13%, mas isso foi o suficiente para dar a vitória ao PS. Passados quatro anos, o PSD candidatou… Marco Almeida. E o que ganhou com isso o homem que em 2013 mordeu os calcanhares de Basílio Horta? Muito pouco - Basílio e o PS tiveram agora maioria absoluta, Marco Almeida cresceu apenas quatro pontos percentuais (sete mil votos). Desta vez teve Passos ao seu lado. Serviu para a fotografia, mas não para o boletim de voto.

Coimbra

Era a capital de distrito que o PSD tinha mais esperanças de conquistar. Para combater o socialista Manuel Machado, que muitos rotulavam como um rosto do passado, o PSD escolheu, depois de muita hesitação… outro rosto do passado - o ex-autarca de Miranda do Corvo. Jaime Ramos também é ex-deputado e ex-governador civil. Não será o futuro presidente da Câmara de Coimbra. Com 26%, ficou a nove pontos percentuais do PS, e abaixo do resultado do PSD em 2013. A conquista desta capital de distrito foi só uma miragem.

Odivelas

Era, com Sintra, a outra grande autarquia que o PSD ambicionava conquistar numa área metropolitana (com mais de 150 mil habitantes, Odivelas é o 15º município mais populoso do país). Fernando Seara, o homem que há anos ganhou Sintra sem ninguém esperar e em 2013 perdeu em Lisboa sem apelo nem agravo, foi a “grande aposta”. Deu resultado pequeno. O PSD subiu de 18% para 21%, mas o autarca socialista, que era visto como o mais frágil na área metropolitana de Lisboa, subiu ainda mais, de 39% para 45%. Seara, com 12 mil votos, ficou a léguas dos 26 mil do socialista Hugo Martins.

Covilhã

Na histórica autarquia social-democrata, o PSD foi varrido do mapa. Carlos Pinto, ex-presidente da câmara pelo PSD, que agora virou independente, foi o responsável pela quase extinção laranja. Pinto estava disponível para ser outra vez candidato pelo seu partido de sempre, contra o atual presidente socialista, mas a concelhia local do PSD rejeitou essa hipótese. O coordenador autárquico Carlos Carreiras, com a política de deixar estes processos apenas nas mãos das estruturas locais, não interveio. Conclusão: o PS venceu, o agora independente foi o segundo mais votado. O PSD, esse, pela primeira vez nem um vereador elegeu. E não é como se Pinto tivesse ocupado todo o espaço não socialista. Pelo contrário: o CDS, que nunca teve expressão na Covilhã, deu um salto para os 15% (o dobro do que teve a lista oficial do PSD), elegendo um vereador. O candidato do CDS foi Adolfo Mesquita Nunes, dirigente nacional dos centristas, com raízes na Covilhã, que fez uma campanha surpreendente. Marco Batista, o candidato do PSD, limitou-se a surpreender pela negativa.

Pedrógão Grande

Um caso de estudo sobre como não preparar uma eleição local. Valdemar Alves, eleito presidente da câmara há quatro anos nas listas do PSD, foi dispensado pela concelhia... do PSD. Apesar de estar no primeiro mandato, os sociais-democratas preferiam descartá-lo e candidatar João Marques - ex-presidente da câmara, provedor da Misericórdia e… presidente da concelhia. Alves, que queria continuar o trabalho iniciado há quatro anos, avançou contra o seu partido, e apoiado pelo PS. Para azar do PSD, o verão pôs Pedrógão Grande sob os holofotes, e Valdemar Alves tornou-se uma figura nacional. João Alves também - foi quem disse a Passos Coelho que tinha havido suicídios depois dos fogos de junho no Pinhal Interior, lembra-se? Se liderança nacional do PSD se tivesse imposto, dizendo que não se afasta um autarca em funções só porque sim, ou porque há uma ambição pessoal nesse sentido, era menos uma câmara que o PSD perdia. Assim, o PS reconquistou Pedrógão 24 anos depois. Mas não se julgue que havia uma diretiva do PSD num ou noutro sentido. Em Pombal, por exemplo, aconteceu o mesmo que em Pedrógão - o presidente que saiu há quatro anos por limitação de mandatos quis voltar, mas o PSD manteve-se fiel ao autarca em funções (que ganhou). Em ambos os casos, impôs-se simplesmente a vontade da concelhia, sem qualquer intervenção da direção nacional do PSD, que só não queria criar conflitos com as estruturas locais.

E mais alguns tiros ao lado

Em Almada, o PSD candidatou uma figura nacional à Assembleia Municipal - Maria Luís Albuquerque. Conseguiu mais votos do que o candidato à câmara, mas não muitos mais. Apenas 256.

Em Loures, André Ventura chegou aos 21% - mais 5 pontos que em 2013, mais 5 mil votos. Resta saber se o acrescento compensou a polémica nacional em que o candidato envolveu o nome do PSD.

Em Marco de Canaveses, o PS ganhou pela primeira vez, e logo 15 pontos à frente do PSD. Em Chaves, o PSD perdeu pela primeira vez. Também para o PS, e também com um grande trambolhão: os sociais-democratas ficaram 17 pontos atrás dos socialistas.

Na Madeira, nem a autonomia valeu ao PSD. Os resultados de 2013 já tinham sido de pesadelo, os de domingo ainda pioram: o PSD ganhou uma câmara mas perdeu duas, e viu Paulo Cafôfo chegar à maioria absoluta no Funchal. Cafôfo, eleito com o apoio de uma grande coligação liderada pelo PS, confirma o estatuto de alternativa regional a Miguel Albuquerque. E Albuquerque ainda perdeu, nesta refrega, Rubina Leal, que era a secretária regional com mais notoriedade e nem assim recuperou a capital da região.