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Autárquicas 2017

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A presidente surpresa que quer ir de cacilheiro para trabalhar em Almada

jose caria

Inês de Medeiros justifica vitória surpreendente em Almada com "usura do poder" da CDU durante quatro décadas, conjugada com a “boa onda” da governação socialista a nível nacional. Sem maioria absoluta, rejeita antecipar cenários sobre eventuais réplicas de geringonças para governar Almada. Uma cidade para a qual admite deslocar-se de cacilheiro para poder trabalhar

Passa pouco do meio dia quando Inês de Medeiros devolve a chamada inicial, feita há minutos, e não atendida. "Peço desculpa, mas tenho passado a manhã ao telefone", justifica-se. O riso que acompanha a explicação sublinha também a naturalidade da sucessão de telefonemas. Porque passavam apenas cerca de 10 horas desde que Inês de Medeiros vira confirmada uma das grandes surpresas das autárquicas deste domingo: a vitória que protagonizou em Almada, onde derrubou, pelo PS e pela primeira vez desde 1976, o poder histórico da CDU. Um feito que a própria assumiu, logo no momento da consagração, que a "surpreendeu".

"A determinada altura da campanha percebemos que podíamos ter um bom resultado. MAs a CDU tinha maioria absoluta. E este era um concelho com elevada taxa de abstenção. Em 2013 tinha tido 60%. Portanto era difícil perceber se conseguiríamos ganhar", contextualiza.

Feita a festa e dormidas umas horas, a ex-deputada e candidata independente pelo PS em Almada garante agora que "já passou o efeito surpresa" e que regressou "à terra". Nomeadamente àquela que se prepara para presidir, conquistada por uma diferença de apenas 213 votos sobre a CDU. Uma margem curta, mas suficiente para traduzir um "factor muito importante" na vitória socialista. "Durante a campanha senti o peso da usura do poder pela CDU. As pessoas sentem que Lisboa e toda a região em redor está a avançar e desenvolver-se e que Almada está a ficar para trás", contextualiza Inês de Medeiros.

A isso acresce "a boa onda" trazida pela governação socialista e que, em Almada como em muitos outros municípios, acabou por reflectir-se naquilo que António Costa sintetizou, no domingo à noite, como "a maior vitória eleitoral da história do PS". "A capacidade de dialogar com os partidos à esquerda, acabar com a rivalidade com o PCP e mostrar que é possível negociar" são alguns dos factores que Inês de Medeiros admite que, pela experiência a nível nacional, possam ter influenciado as decisões dos cidadãos nestas eleições locais.

Apesar dessa análise, a futura presidente de Almada - onde o PS terá quatro mandatos, a CDU outros tantos, o PSD 2 e o Bloco 1 - assume que os habitantes do concelho "esperam que essa capacidade de diálogo não seja só com a CDU e com o Bloco". "O que os eleitores querem é um município com outra dinâmica e energia". E pode ser isso entendido como uma 'fuga' a replicar geringonças em Almada?

"Não creio que as pessoas estejam neste momento preocupadas em saber que tipo de acordo vamos fazer. Temos tempo para pensar com calma", resume, defendendo que, nesta fase, a gestão de equilíbrios entre os partidos da esquerda não é uma prioridade e manifestando-se tranquila quanto à capacidade de gerar entendimentos que tornem a autarquia governável. Uma tranquilidade que estende, aliás, ao potencial impacto que a queda da CDU nestas eleições possa ter na estabilidade da maioria parlamentar de esquerda, depois de os comunistas terem perdido 10 câmaras nas eleições de ontem, nove das quais para o PS, como Beja, Barreiro, Alcochete ou Castro Verde, além de Almada.

"As eleições autárquicas não vão interferir na questão governamental. Não acredito que isso aconteça, porque os eleitores sabem que a política nacional é diferente da política local. Em Almada, por exemplo, sentimos que as pessoas são favoráveis à atual solução de Governo", sugere Inês de Medeiros.

Quanto às suas prioridades para Almada, a futura presidente diz que o foco inicial terá de estar "naturalmente na negociação do orçamento". Um dossiê que beneficiará do facto de o município "ter finanças saudáveis". Sobre os restante projetos que pretende implementar na cidade, a seu tempo os abordará.

Por definir está também, por enquanto, qual a rotina pessoal que adotará nas novas funções. Irá fixar residência em Almada? Ou mantém-se a viver em Lisboa? Ri-se. Mas assume que para já ganha a segunda opção. "A margem sul é muito perto. Esta pode ser uma boa oportunidade para acabar com esse estigma do rio intransponível entre as duas cidades", solta, antes de assumir que a manutenção da residência em Lisboa lhe permitirá continuar a ser "uma grande defensora do cacilheiro". "Por mim vou de cacilheiro para Almada. Só se não me deixarem... mas logo se vê".