Siga-nos

Perfil

Autárquicas 2017

Autárquicas 2017

O regresso de Isaltino, versão rockstar. E os fãs que garantem: “O homem foi preso e não foi justo”

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Esta é a crónica de uma vitória anunciada. No regresso de Isaltino, houve beijos, abraços, tochas, aplausos. Mais parecia a entrada de um concerto, com uma verdadeira rockstar a causar alvoroço. Horas antes, os fãs riam-se de Paulo Vistas na TV: “O Paulo desceu para caraças!”

Está tudo pronto para receber uma estrela de rock. Há palco e há microfone, há tochas acesas lá fora, há coros ensaiados, sobretudo há ansiedade palpável por entre a multidão. Como nos concertos, cada vez que há uma falsa partida e aparece um técnico de som – perdão, um assessor ou membro da campanha – ouvem-se uns gritinhos enganadores, de quem julga ter sido o primeiro a ver a estrela a chegar. Neste caso, não se espera pelos U2 ou pela Madonna, mas por Isaltino Morais, pronto para o regresso triunfal que andou, se não a preparar, pelo menos certamente a sonhar durante os últimos quatro anos.

A entrada, feita por volta das 22h30, é épica: por entre a fumarada verde e a música estridente, os apoiantes que o esperaram durante toda a tarde e noite no Lagoas Park Hotel, em Porto Salvo, recusam-se a arredar pé ou a dar espaço à estrela de rock para respirar. E ele não se importa, porque, garante, é um homem de afetos. Enche quem passa de beijos e abraços. Manda recados, de indicadores em riste. Não fala em maiorias, absolutas ou pequenas. Congratula-se pela vitória da candidatura “mais independente de Portugal”. Do público, respondem-lhe, sem dúvidas, como se a intuição não lhes pudesse falhar: “Maioria absoluta!”.

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

É a mesma reação de horas antes, mais precisamente pelas 20h, quando se conheceram as primeiras projeções que já davam a vitória a Isaltino em Oeiras. Na verdade, há duas coisas que chamam a atenção dos apoiantes de Isaltino Morais que aqui se concentraram esta noite. Primeira: as projeções que dão a Isaltino 42% a 47% dos votos, e que provocam desde o primeiro momento gritos e aplausos eufóricos. Segunda: a imagem de Paulo Vistas no ecrã da televisão.

Ninguém terá percebido bem o que Paulo Vistas, que já foi discípulo e é agora arqui-inimigo de Isaltino, disse aos microfones dos jornalistas também pelas 20h, em reação à já então óbvia derrota. Assim que a sua imagem apareceu no ecrã, dezenas de apoiantes correram para a frente do aparelho, mas sem ouvir nada do que Vistas – que, apontavam as projeções, conquistara por volta de 15% dos votos – tinha para dizer. Do lado dos apoiantes de Isaltino ouviram-se gargalhadas, apontaram-se dedos. “Adeus, ó palhaço! Já foste! Adeus”, gritava com satisfação um homem, acenando ao ecrã. Por aqui, o presidente da Câmara de Oeiras não deixará saudades.

Não foi o primeiro momento em que houve reação a Vistas. Momentos antes, uma mulher gritava, em tom de brincadeira, para um homem de pólo cor de rosa, a cor da campanha do atual autarca de Oeiras:

- Não é justo! Estar de cor de rosa não é justo!

- Olha, também o homem foi preso e não foi justo, replicava o homem do pólo cor de rosa.

João Lima

A incerteza maior

A primeira reação às projeções de Oeiras trouxe a euforia à sala. Houve abraços, bandeiras a esvoaçar, gritos e cantorias. A seguir, o compasso de espera pela hora em que falaria o diretor de campanha de Isaltino, e a audiência a engrossar. Quando o homem pisou o palco, o êxtase - lá está, de novo, o fenómeno dos técnicos de som que pisam o palco antes das estrelas de rock. Mesmo que por aquela hora, às 20h15, só tivesse isto para dizer:

- Queremos deixar uma congratulação pela forma correta como decorreu o ato eleitoral em Oeiras; assinalar os dados de diminuição da abstenção, que sempre foi objetivo da nossa campanha; e aguardamos pela celeridade da contagem dos votos e oficialização dos resultados.

Nem uma palavra de confirmação das razões para aquela alegria, nem um “a confirmar-se estas projeções…” ou um “provavelmente, Isaltino vencerá”, talvez à espera da certeza – ou não – da maioria absoluta. No entanto, a pequena multidão presente reagiu como se tivesse sido anunciada uma percentagem de 90% para o antigo autarca de Oeiras, dinossauro de regresso. Voltaram os gritos, saltos e aplausos. Um apoiante gritou, entusiasmado: “Nós ficamos aqui a noite toda, se for preciso”.

João Lima

"O Paulo desceu para caraças!"

A campanha ainda não tem a certeza, mas por entre os apoiantes já se ouve falar do objeto mais desejado da noite, que com o passar das horas passou de habitar somente em sussurros para ganhar a forma de grito afirmativo: “Maioria absoluta”. “Jesus!”, grita um homem, ao ver a distância de 30 pontos que as projeções colocam entre Isaltino e o segundo colocado, Vistas. “O Paulo desceu para caraças, fogo!”.

Não se estranhe a familiaridade: afinal, algumas destas pessoas até podem ter estado na sede de Paulo Vistas, há quatro anos atrás, no dia em que venceu a Câmara de Oeiras… pelo movimento “Isaltino Oeiras Mais à Frente”. Nesse dia, Vistas encabeçava os festejos ocupando o lugar de Isaltino, protegendo-lhe o legado, enquanto este cumpria tempo de prisão na Carregueira. Mas mudaram-se os tempos, e é é difícil, até para um discípulo cumpridor, impedir o regresso de um mestre que é, a julgar pelos abraços em que é engolido, uma estrela de rock com verdadeiros fãs.