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Autárquicas 2017

Autárquicas 2017

BE “modesto”, mas com “uma grande novidade em Lisboa” chamada Robles

O Bloco de Esquerda tinha um objetivo claro: conseguir eleger um vereador para a Câmara de Lisboa. Conseguiu. A noite foi de expectativa, de muitas palmas e sorrisos. Nas autárquicas de 2013, o partido perdeu a única câmara que tinha (Salvaterra de Magos), esta noite não a recuperou nem assegurou nenhuma autarquia. “Um resultado modesto”, com um partido “ainda com muito para aprender”. Mas o BE conseguiu anda outro objetivo: “um mau resultado da direita”, que “prova que há outra possibilidade do que o caminho do empobrecimento”

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

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Jornalista

José Caria

José Caria

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Fotojornalista

Ricardo Robles, 40 anos. É ele a “grande novidade” do Bloco de Esquerda nestas eleições, voltando o partido a ter um vereador na Câmara de Lisboa. Este domingo, o BE falou num “resultado modesto”, com dois objetivos falhados mas com pelo menos dois cumpridos.

“Ainda não temos dados finais, mas as projeções apontam para uma grande novidade na cidade de Lisboa: o Bloco de Esquerda passa a estar na Câmara”, afirmou Robles perante os jornalistas já depois das 23h. “Vou assumir o mandato por inteiro: serão quatro anos em que dedicarei o melhor que sei à cidade de Lisboa. Quem se candidata a Lisboa tem de assumir isso como uma prioridade e isso farei enquanto vereador”.

Foi numa das salas recentemente renovadas do Palácio das Galveias, em Lisboa, que se juntou o Bloco para ver e reagir aos resultados eleitorais este domingo. As estantes antigas de um edifício do XVI contrastam com todo o equipamento tecnológico: as câmaras das televisões, os portáteis dos jornalistas e dos smartphones dos apoiantes. As portadas brancas estão abertas para o jardim, onde a esplanada improvisada está cheia de gente. Além de autárquicas, é dia de bola (primeiro o FC Porto e Sporting, pouco depois o Benfica). Há televisão, comes e bebes e ainda resta um pouco de sol de num dia surpreendentemente quente para outubro. Já com direito de voto exercício e à espera dos resultados das projeções, a comitiva bloquistas espera…

O relógio bate as 20h. O futebol torna-se completamente secundário. Todos os olhos estão colados aos canais de informação. Por momentos, silêncio. Bastam uns segundos para o silêncio dar lugar às palmas, assobios e sorrisos. Há abraços e cumprimentos. Lisboa é a primeira a surgir e as projeções: Ricardo Robles é dado como certo como vereador e ainda com possibilidade de eleger um segundo. “É esquerda, é Bloco de Esquerda. É esquerda, é Bloco de Esquerda”, grita-se.

José Caria

A noite prometeu ser longa, esperava-se que disputa fosse até ao limite em algumas câmaras. Conquistar presidência em Torres Novas ou reconquistar Salvaterra de Magos (onde nas últimas legislativas o Bloco perdeu a única autarquia que tinha) eram outro dos objetivos. “Os sinais que temos recebido de todo o país apontam para um reforço substantivo da presença autárquica”. Mariana Mortágua, deputada parlamentar e na assembleia municipal de Lisboa, é a primeira a comentar as projeção. “Aguardar com expectativa”.

Há miúdos a correr de um lado para o outro. Pessoas entram e saem da Sala José Saramago. Lá fora no jardim, ao futebol continua a ajudar a passar o tempo. “O resultado no Porto parece interessante”, diz um apoiante diante a televisão. Entre os recém-chegados está Francisco Louçã, fundador e ex-coordenador do partido. Dirige-se logo para a sala onde está a comitiva do BE recebe os resultados. Lá dentro, estão Ricardo Robles e Catarina Martins. Minutos depois surge pela porta Marisa Matias. Com o adiantar da hora cada vez mais gente forma um semicírculo em torno dos três grandes ecrãs.

Já passavam das 23h quando Ricardo Robles, ainda sem os resultados em Lisboa, falou: “Vou assumir o mandato por inteiro: serão quatro anos em que dedicarei o melhor que sei à cidade de Lisboa. Quem se candidata a Lisboa tem de assumir isso como uma prioridade e isso farei enquanto vereador”.

José caria

Foi recebido entre palmas e gritos, não rejeitou uma parceira com o PS, defendendo que está disponível para “uma viragem política e isso implica fazer o que não foi feito”. Desde 2008 que o BE não tinha representação na câmara da capital, quando retirou o apoio a Sá Fernandes.

Ao contrário do que desejavam, acabou por se comprovar que o Bloco não conseguiu nenhuma presidência de Câmara. “O BE tem um presença modesta nas autarquias, mas estivemos presentes em mais autarquias e freguesias que nunca. É um caminho que dá resultados. Uma coisa é certa: o BE cresceu em número de eleitos e de votos.”

Com menos de 100 freguesias ainda por apurar, o Bloco de Esquerda conseguiu 3,01% na generalidade dos resultados, que correspondem a oito mandatos. Em 2013, tinham alcançado 2,42%, que corresponderam a oito mandatos (dois em Salvaterra de Magos, um na Moita, um no Seixal, um no entroncamento, um em Portimão, um em Torres Novas e um em Olhão).

Objetivo: mau resultado da direita

Catarina Martins admitiu que o resultado das autárquicas foi “modesto” e, além da eleição de Robles, apresentou outro objetivo cumprido: “o mau resultado da direita”. “A direita no seu conjunto perdeu, acho que é facto de o país ter provado que é possível um outro caminho que não o do empobrecimento”, disse.

José Caria

E porque no Bloco “não se falam apenas das coisas que correram bem”, a coordenadora enumerou dois objetivos falhados: não ganhou nenhuma Câmara Municipal e não travou as maiorias absolutas. “Tudo indica que teremos mais maiorias absolutas em todo o país. Teremos de trabalhar mais. Sabemos que o dia a seguir às eleições vem mais trabalho do que antes. O BE tem responsabilidades acrescidas após estas eleições. O BE sabe que tem muito a fazer no seu caminho autárquico. Na verdade, o BE é um partido que cresceu tanto em número de votantes, como percentagem como em número de mandatos”, referiu.

O Bloco mostrou-se ainda “orgulhoso” por ter conseguido eleger em freguesias onde até este ano não tinha apresentado candidaturas, sobretudo no interior do país. Com menos de 100 freguesias ainda por apurar, o Bloco de Esquerda conseguiu 3,0% na generalidade dos resultados das assembleias de freguesia, que correspondem a 182 mandatos. Em 2013, tinham alcançado 2,32%, que corresponderam a 138 mandatos.