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Autárquicas 2017

Autárquicas 2017

O que nós queremos sabem eles… (ensaio de Henrique Monteiro)

ilustração tiago pereira santos

Um populista necessita da demagogia para levar o seu programa ao poder. Mas nem todos os demagogos são necessariamente populistas

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

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Redator Principal

Cada vez se fala mais de populismo. Tudo o que é mau é, hoje em dia, populismo. No entanto, se quisermos ser rigorosos, as coisas não são bem assim. A maioria dos candidatos a quem chamamos populistas nem sequer o são. Aqueles, como por exemplo André Ventura, em Loures, são – se os quisermos classificar politicamente para além do oportunismo e da xenofobia – demagogos. O mesmo são os que prometem bacalhau a pataco, rodas gigantes, moedas ou ciclovias que parecem prémios de montanha de 1ª categoria na Volta à França.

Estabeleçamos, pois, a diferença. O que é um populista? Para não ofendermos ninguém do burgo, nem de burgos próximos, escolhamos o inevitável Viktor Orban da Hungria. Na Rússia, Putin seria outro bom candidato, ao passo que Trump será um populista falhado. Porquê? Porque o populista age sempre de forma a parecer (e atenção ao verbo parecer) que está a favorecer os desprotegidos, os mais carenciados prometendo-lhes mais e mais benesses de forma a, em contrapartida, conseguir aumentar o seu poder. Para ter dois terços no Parlamento e mandar em tudo, como Orban; para se perpetuar no poder, como Putin. A Trump, que vive em ambientes com muito maior escrutínio, saiu-lhe bem a demagogia, que o levou a ser eleito, mas não conseguiu o apoio popular massivo de que um populista carece.

A demagogia é, ao fim e ao cabo, o primeiro patamar do verdadeiro populista. Desde logo, assume que ele, sim, diz a verdade, ao contrário da oligarquia; depois afirma que há uma espécie de central (pode ser Bildberg, a Maçonaria, o Opus Dei ou todos juntos) que dominam o país e o mundo nas costas do povo; por último, prometem a segurança aos mais necessitados, que em regra estão ameaçados de vários perigos, que vão dos estrangeiros aos oligarcas. Por vezes conseguem vencer eleições, ou chegar por outros meios ao poder, e transformam-se em protetores, espécie de ‘pais do povo’.

Eles sabem o que nós queremos; dominam a máquina e, prejudicando o suporte essencial de uma sociedade aberta e livre, que é a classe média, confunde-a com os ricos, com os oligarcas, com a comunicação social dominada por uma fação, com um pequeno grupo de privilegiados e sacam de uma receita que, quase sempre, é infalível: a inveja! Depois aconselham a que se vá buscar o dinheiro onde ele está (isto, de facto, não foi dito nem por Orban, nem por Putin, mas não interessa).Um verdadeiro populista será como o brasileiro (1882-1954) Getúlio Vargas, que foi três vezes presidente. Uma, eleito na Assembleia Nacional; outra em voto direto e outra como ditador. Dizia-se que ele próprio colocava caspa por cima dos ombros para ser visto como popular. A sua política, aliás, era considerada populista sem desprimor de quem a classificava. Num dos seus mandatos, o Brasil conheceu um simulacro de guerra civil, quando os paulistas, Estado que reunia a maioria da classe média, além da oligarquia do café, se revoltam contra o excesso de poderes do presidente. Foram derrotados. E os sindicatos, que Getúlio dizia defender e ter sob sua proteção, ganharam bastantes prerrogativas. Ao mesmo tempo, ilegalizou o Partido Comunista Brasileiro. Curiosamente, seria em nome da luta contra o comunismo, que estaria a ameaçar o Brasil através da Internacional Comunista, que ele faria um golpe de Estado contra a Constituição de 1934 (que subscrevera e pela qual era Presidente), estabelecendo a ditadura em 1937 e dando-lhe o nome (para os portugueses não muito original) de Estado Novo.

Ou seja, o verdadeiro populista pretende governar em nome do povo a seu favor, afirmando conhecer bem as suas necessidades, que passam invariavelmente pela criação, mais ou menos artificial, de um clima de insegurança (seja o comunismo, o imperialismo, o terrorismo ou outro ismo, sejam os estrangeiros, os refugiados, os judeus, curdos, islâmicos ou arménios). Essa insegurança tem de ser combatida com firmeza, sem vergonha, sem contemplações. Por isso, o poder dos populistas tem de ser de largo espectro, pouco controlado, muito pessoal. Nesse sentido, um populista verdadeiro é um líder de massas e não apenas alguém que repete promessas.

Um mero demagogo é outra conversa… O demagogo pode bem ser um democrata (Platão sustentava que toda a democracia degenerava em demagogia) e limita-se a dizer o que o povo quer ouvir. O aeroporto na terra, a moeda própria no concelho, ou a gratuitidade dos transportes públicos. Pode, até, ser xenófobo ou racista se entender que essa é a melhor forma de ter votos. Um pouco de tudo isto tem sido dito nas nossas autárquicas. E algumas dessas propostas são de forças que provavelmente serão vencedoras. Aqui temos um problema: se são vencedoras é porque a maioria vota nelas. Ora, se a maioria as quer, por que motivo não devem ser propostas?

A ideia é complexa. E parte do princípio de que um líder político ou um candidato não deve prometer o céu, nem nada que não esteja ao seu alcance mudar. Mas tal pressupõe um escrutínio que, no geral, não existe. Se o candidato fosse sério poderia, até, explicar a razão pela qual alguns dos desejos do seu eleitorado não podem ser satisfeitos. Mas isso talvez fosse pedir de mais…

No fim, o que é Isaltino, por exemplo? Foi sempre um populista à sua medida, incansável no contacto direto, pretendendo que esse contacto lhe dá o conhecimento integral dos problemas do concelho.

As pessoas gostam disso. Retirado do poder por sentença judicial, condenado em tribunal, aí está de volta, a liderar sondagens. A sua campanha não é, especialmente, demagoga, se a compararmos com tantas outras que por aí pululam. Nenhum partido o apoia… Que fenómeno é este, sobretudo no concelho com maior rendimento per capita, gente mais qualificada no ensino e suficientemente informada?

Em resumo, muito resumido, sabemos que um demagogo nem sempre tem de ser um populista (ou porque não deseja ou porque não consegue). Mas um populista nunca sobrevive sem demagogia. É por isso que convém combater esta, antes de começar a chamar populista (ou extrema-direita, como esta quinta-feira refere João Miguel Tavares no “Público”) a toda a gente.