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Autárquicas 2017

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“Polaco, o terrível” que quer ganhar uma câmara em Portugal

Andrzej Kowalski, apoiado pelo Bloco de Esquerda, pode ser o próximo líder da Câmara de Leira

Foto Marcos Borga

Andrzej Kowalski, 65 anos. O que faz um polaco candidatar-se à liderança de uma autarquia? Diz que “ser compostinho” não é coisa para ele e muito menos quer tornar-se “um profissional da política”. Escolheu Leiria porque apaixonou-se pela primeira portuguesa que conheceu. Em tempos, foi professor de teatro de Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda, partido pelo qual concorre. É um dos vários estrangeiros que vão a votos nas eleições de domingo

A autoestrada do Oeste prometia passar-lhe pelo meio do terreno. Andrzej Kowalski não gostou da ideia. E com ele outras tantas pessoas se opuseram à construção da via mais conhecida como A8, que atravessa os distritos de Lisboa e Leiria. Por seis meses, conseguiram impedir o avanço das obras. Andrzej ia às manifestações e fazia ouvir a sua voz. Nesses tempos, chamavam-lhe “Polaco, o terrível”. Foi a primeira vez que se envolveu em política. “Era mais um movimento de cidadãos, na realidade”. Quase 20 anos depois, a A8 atravessa-lhe a herdade e bem ali ao lado ouvem-se os carros a passar. Hoje, Andrzej é candidato à Câmara de Leiria.

“Fiz a vida negra ao pessoal da autoestrada, mas também faziam burrices atrás de burrices, ilegalidades atrás de ilegalidades. Estavam a passar por cima das pessoas. Apesar de terem construído a A8, conseguimos, por exemplo, que não colocassem uma portagem no meio das casas. Por pouco não ganhámos.” Andrzej Kowalski, 65 anos, nunca foi militante do Bloco de Esquerda. No ínicio do ano, desafiaram-no e aceitou: “Porque não?”

Andrzej da aulas no Politécnico de Leiria há 13

Andrzej da aulas no Politécnico de Leiria há 13

marcos borga

Nasceu na cidade mineira de Katowice, a menos de 100 quilómetros de Cracóvia, no sul da Polónia. Ali cresceu e seguiu pelos caminhos do teatro – licenciou-se em Filologia Polaca, com especialização em Teatrologia e Filmologia. É encenador, cenógrafo e professor no Instituto Politécnico de Leiria. Chegou mesmo, há muitos anos, a dar aulas à coordenadora do Bloco, Catarina Martins, ainda esta não sonhava ser líder de um partido ou deputada.

“O facto de ser estrangeiro dá um valor simbólico à candidatura. Não tem nada de extraordinário, mas mostra a ideia de abertura, que estamos a viver cada vez mais num mundo global. Isso não pode ser apenas abordado na perspetiva económica. O universo é mais do que Leiria, aqui temos quatro mil cidadãos estrangeiros. Um dos elementos da minha lista é um moçambicano, muçulmano e jovem”.

No dia em que encontramos Andrzej, estava marcada a gravação do debate com todos os candidatos à Câmara de Leiria, na RTP. Ainda não está habituado a “responder com duas frases a perguntas que não se respondem em duas frases”. Diz que lhe falta algum cinismo do “profissional da política”, mas que também não quer aprender.

marcos borga

“Não vai pôr laca, pois não?”, pergunta Andrzej.

“O cabelo fica mais compostinho”, justifica de imediato a cabeleireira.

“Mas isso de ser compostinho não é bem comigo”, diz o candidato.

Depois, já quase a entrar para o debate, explica: “só usei gravata uma vez na vida, que foi no casamento. Foi a minha mãe que me obrigou. Aliás, disse-me que só ia à cerimónia se usasse gravata. Há coisas que só se fazem mesmo pela mãe”. Andrzej está longe de ser o político que veste fato, penteia o cabelo certinho e anda de barba feita.

“Sou um novato. É algo que até há seis meses nunca pensei fazer. Há falta espírito de comunidade, um virar de costas à política. Quero prestar um serviço à comunidade, que para ser bem prestado precisa do apoio das pessoas. E é isso que falta a esta Câmara, por isso queremos envolver mais pessoas e, no fim de contas, mostrar que política pode ser outro coisa que não esta política de gabinete. A Câmara tem de ser mais do que apenas gestão.”

O amor português e um país “onde faltava fazer tudo”

marcos borga

Esta podia bem ser uma daquelas histórias do cinema, em que duas pessoas se conhecem num local improvável, apaixonam-se e mudam a sua vida por amor. Foi mais ao menos o que aconteceu com Andrzej (“só conto a história porque é mesmo bonita”): numa ilha do Adriático encantou-se pela “primeira mulher portuguesa” que alguma vez viu. “Passado cinco dias, disse-lhe que ia casar com ela”. Ele regressou à Polónia. Ela a Portugal. Mais de três mil quilómetros separavam-nos, foram-se encontrando aqui e ali, entre os festivais de teatro.

“Depois do 25 de abril, havia tudo para fazer em Portugal, a nível cultural não existia nada, a percentagem de analfabetos era de 39%. Havia um grande atraso cultural na cultura, na informação… Formamos e apoiámos à volta de 80 grupos de teatro no distrito. Viemos para ver como as coisas iam correr, tinha deixado as coisas mais ou menos organizadas na Polónia caso fosse necessário voltar. Fomos ficando”, explica.

Aos 26 anos, Andrzej fixou-se em Portugal. Depois casou, teve dois filhos e já tem dois netos. “O mais novo dizia no outro dia que se queria ser candidato às eleições como o avô”, conta a mulher Isabel, enquanto o candidato troca de roupa. Ao final do dia, pega no trator para tratar da terra. É cansativo e dá trabalho, mas aquele é um momento só dele, em que há tempo para pensar.

marcos borga

Lado a lado com Andrzej Kowalski, concorrem à Câmara de Leiria Raul Castro, atual presidente e apoiado pelo Partido Socialista, Fernando Costa (PSD), Sérgio Duro (CDS), Anabela Baptista (CDU), Daniela de Sousa (PAN) e João Pais Amaral (PNR). “Não sou nenhum lunático para dizer que vou vencer. O objetivo é ganhar um vereador, que pelo menos já é uma voz diferente lá dentro. E isso já não é nada fácil de conseguir, para isso acontecer teríamos de conseguir triplicar o número de votos. Não digo que não seja possível mas é muito complicado.”

Quem pode ser candidato?

Andrzej só pediu a dupla nacionalidade algures nos anos 90 da década passada. A razão era muito prática: um passaporte português simplificava as viagens – a Polónia só aderiu à União Europeia maio de 2004 e ao Espaço Schengen, que permite a livre circulação de pessoas, em dezembro de 2007. Poderia ter pedido quando se casou com Isabel ou após o sexto ano de residência em Portugal.

“Portugal tem esta coisa bonita: não é racista, por mais racistas que andem por aí. Ao longo destes anos todos, salvo algumas coisas muito esporádicas, nunca tive qualquer problema”.

marcos borga

Por todo o país existem vários estrangeiros na corrida do próximo domingo como Mário Carvalho, 48 anos, cabo-verdiano e cabeça de lista à Câmara Municipal da Amadora pelo partido Nós, Cidadãos!; Florence Melen, 47 anos, belga e candidata à junta de freguesia de São Miguel de Machede (Évora), pela CDU; Safaa Dib, 34 anos, nascida no Dubai, registada no Líbano e aos dois anos chegou a Lisboa, candidata-se pelo Livre à Câmara de Oeiras; já Alecsander Pereira, com nacionalidade portuguesa e brasileira, é o cabeça-de-lista do CDS-PP à Junta da União de Freguesias de Santa Maria da Feira, Travanca, Sanfins e Espargo; Md Shah Alam é natural do Bangladesh e faz parte da lista do candidato do PS à Câmara do Porto; em Aljezur, o alemão Johannes Schydlo, 65 anos, é deputado municipal há 16 anos nas listas do Partido Socialista; Stephen Hugman (PSD), inglês de 64 anos, recandidata-se ao terceiro mandato em Monchique; a holandesa Monique Volkers (PSD) e a irlandesa Anne Dinneen (PS), 57 anos, concorrem à junta de freguesia de Monchique.

De acordo com a lei, qualquer cidadão recenseado e que seja de um dos países membros da União Europeia, Brasil ou Cabo Verde pode constar nas listas de candidatura às autarquias locais.