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Autárquicas 2017

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Campanha em Loures: Ventura “armado em campeão” e Bernardino à procura da maioria absoluta

Em menos de 24 horas na campanha em Loures há muitos beijinhos, debates em plena rua e ‘bocas’ sobre a questão dos ciganos. Sónia Paixão apresenta-se porque nem todos a conhecem, Bernardino Soares pede a maioria absoluta e lembra que na CDU não há lugar para ‘tachos’. E André Ventura ouve quase tantas referências à sua candidatura como ao seu benfiquismo

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Cravos vermelhos. Lemas de revolução. Pinturas de Zeca Afonso. “Eles comem tudo e não deixam nada”. Quem percorre o caminho que liga a Câmara de Loures ao Parque da Cidade, polvilhado por cartazes dos candidatos socialistas e comunistas ao município, poderia pensar que o PSD não apostou forte neste concelho. Afinal, Loures sempre foi de esquerda e o panorama mostra isso mesmo. A luta disputa-se, habitualmente, entre CDU (atual líder da autarquia, com Bernardino Soares a concorrer para a reeleição) e PS, sem deixar espaço à direita para crescer.

Nestas autárquicas, a conversa tem sido outra: com André Ventura, o polémico candidato social-democrata cujas declarações sobre a comunidade cigana (que disse viver “quase exclusivamente de subsídios do Estado”) chegaram para quebrar a coligação com o CDS, o PSD tentou colocar-se no mapa em Loures. Para isso, tem estado na rua – não pôde fazê-lo na manhã desta terça-feira, uma vez que Ventura foi chamado às 11h para ser ouvido no DIAP por causa da queixa-crime que o Bloco de Esquerda fez contra si, relativamente às declarações sobre ciganos. E Bernardino Soares exerce, durante boa parte do dia, as suas funções de autarca.

A manhã desta terça-feira nas ruas de Loures ficou, por isso, por conta de Sónia Paixão, candidata socialista. A primeira arruada do dia estava marcada para as 10h, mas já passava meia hora quando se começou a ouvir, perto do mercado e da feira de Loures, o rufar dos tambores.

Contabilidade: zero maus encontros

A candidata aproxima-se a passos largos dos feirantes, um molho de rosas vermelhas prontas a distribuir às senhoras, sorriso no rosto e bandeiras erguidas. Durante toda a manhã, o apelo ao voto é sempre feito “em nome do Partido Socialista”, nunca a título individual – incluindo quando alguém diz não residir no concelho e a candidata, que primeiro expressa um “oooh” de desilusão, se recompõe: “Onde quer que vote, vote bem. Vote PS”.

Armada de programas, canetas e rosas, Sónia Paixão não deixa banca nenhuma por visitar, cumprimentando todos com uma fórmula quase imutável: “No domingo contamos consigo. Deposite a sua confiança no PS”. Nem todos reagem ao apelo: muitas das senhoras procuram as rosas (“Então não tirou os picos a isto?”) e há quem explique que não vale a pena aceitar o programa, porque não sabe ler.

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Ainda assim, é uma boa manhã para a candidata socialista – debaixo do sol forte que a obriga a beber água e procurar sombras, poucas vezes abranda e a contabilidade dá um total de zero maus encontros. As reclamações ficam mesmo pelos picos das rosas. E ouve queixas sobre os adversários. Logo no início da volta pela feira, diz-lhe uma senhora:

- É do PS, a menina? Vou votar em si! Já viram o que os comunistas fizeram à nossa cidade?

(Antes, uma transeunte desejava-lhe sorte: “O que faz falta é malta nova, não são os velhos”).

Pouco depois, Sónia Paixão passa por uma feirante cigana que se mostra animada ao vê-la, chamando as atenções dos colegas de banca:

- Vês? Não é como o André Ventura. A gente não quer o Ventura. É um racista!

Em passo rápido, quase sempre sem abrandar (“Isto é muita pedalada! O segredo é do magnésio”, graceja quando lhe pedem para desacelerar), a candidata passa mais de uma hora e meia a percorrer o comércio e as ruas de Loures. Distribui beijinhos por quem consegue. E rosas, muitas rosas:

- São flores de casamento!

- Só falta é o noivo.

- O casamento é no domingo e é com o PS! Quem é que apregoa mais, a senhora ou o PS?

Apesar de haver quem não a reconheça (“só a vi nos cartazes”, diz uma senhora), noutros casos o entusiasmo é tal que precisa de ser refreado. Numa loja, uma cliente anuncia-se feliz de ver a candidata à Câmara acompanhada pela candidata à junta, “ainda por cima duas mulheres”: “Se pudesse votar dez vezes, votava. Se pudesse fazer ali uma fraude…”. Imediatamente a campanha a sossega, por entre risos: bastará votar no domingo, “depositando a sua confiança no PS”.

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Bernardino sempre pronto para o embate

“A CDU cumpre sempre mais do que promete”, diz o slogan, vindo dos altifalantes do pequeno carro estacionado em São João da Talha, à porta do supermercado. Passam duas senhoras por ali. “De promessas está o inferno cheio”, comenta uma. É fim da tarde e está prestes a chegar o recandidato da CDU, Bernardino Soares, que por estes dias divide o seu tempo entre as funções de autarca e as de candidato. Entra num café.

- Domingo precisamos de ganhar mais força, explica Bernardino.

- Olhe, comigo não conta. Nenhum conta, responde a funcionária.

Faz-se um momento de silêncio atrapalhado. Não reside no concelho?, questiona Bernardino. Não, só não vai votar em nenhuma das opções, prossegue a senhora. Mas acrescenta:

- Só voto se tirarem os ciganos todos de São João da Talha.

Para Bernardino, está explicado o mistério: “Você vota noutros e não quer dizer”. Aproveita o momento para falar ao resto das pessoas sentadas no café: “Ninguém tem mais direitos nem deveres que os outros”. Mas, enquanto deixa o estabelecimento e alguns membros da campanha ficam a tentar convencer a senhora, ela replica: “Eles não são iguais à gente. Não descontam, têm abonos que eu nunca recebi”.

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

A questão dos ciganos vem à tona em várias ocasiões. Numa loja de animais, uma eleitora defende André Ventura, referindo-se a “uma pessoa que diz o que pensa e que mais ninguém diz e é criticada”. Mas Bernardino tem resposta pronta: “E qual foi a solução que ele apresentou? Nenhuma! Ele quer aproveitar-se da vossa insatisfação e não apresenta nenhuma solução. Os políticos não são todos iguais”. Ideia que também defende, aliás, numa paragem de autocarro, quando um homem diz que troca um voto por um lugar como vereador: “Na CDU não há tacho. Aqui trabalha-se”.

Bernardino não foge a um confronto, argumenta até ao fim, discute os pormenores que vão das novas fardas das auxiliares nas escolas às garagens que estão a ser construídas. Aproveita momentos de maior concentração, como a fila de pessoas numa papelaria que esperam para jogar o Euromilhões, para “desejar sorte”, a eles e a si próprio, “no domingo”. Leva troco: “Vitória no domingo? Porquê, é do Sporting?”. A outra senhora, com quem pára para falar de vinhos, pisca o olho: “Temos de abrir o vinho numa ocasião especial, talvez no domingo”.

Bernardino sabe bem qual é o resultado que espera no domingo, e repete-o incessantemente a todos os que passam, por entre cumprimentos à família e conversas longas sobre assuntos corriqueiros: precisa da maioria absoluta, precisa do que não teve neste mandato e o obrigou a governar em acordo com o PSD, uma ideia agora inviabilizada, em tempos de hostilidade renovada contra o partido que Ventura representa. “Podemos ganhar e não ter a força suficiente para governar”, diz a uns. “A ver se temos mais força no domingo”, pede a outros. “No domingo não precisamos só de ganhar, precisamos de ganhar por muitos, que é para termos condições para fazer o nosso trabalho”.

A julgar pelo estudo de opinião da Eurosondagem publicado pelo Expresso neste sábado, sobre as intenções de voto dos eleitores de Loures, Bernardino pode mesmo vir a ter um problema: os resultados atribuem-lhe cinco vereadores, o que não chega para a maioria absoluta, obrigando-o a chegar a acordos que não deseja (segundo a mesma sondagem, neste cenário o PS ficará com quatro vereadores e o PSD com dois, num executivo camarário com um total de onze membros).

O que vale é que, chegado a um café, se anuncia com entusiasmo:

- Chegou o maior! Chegou o campeão! Nós vamos ganhar mas olhe que o outro anda aí armado em campeão. Em benfiquista…

“Tiveste balls”

Praticamente à mesma hora, o tal benfiquista começa a subir a avenida que parte da Praça Infante Dom Duarte, no Infantado. E parece que está ali tanto na qualidade de benfiquista como de candidato. As referências são inúmeras: há quem lhe chame lampião, quem grite “viva o Benfica!”, quem lhe diga que na política estão em barricadas opostas mas no futebol não. E Ventura não evita o assunto: promete que quando se “candidatar ao Benfica” lá voltará, e pede que limpem as paredes daquela zona, em tom de graça, quando vê um grafiti com as iniciais do Sporting.

Bola à parte, também lhe falam de política. “Tiveste balls”, elogia um transeunte. A ideia de que “diz as verdades” é várias vezes repetida por quem lhe assegura concordar “a cem por cento” na questão dos ciganos, quem lhe diz que não recebe subsídios e a quem responde: “E a menos de um quilómetro não fazem nada e recebem-nos. É a verdade”. Atrás de cada elogio aparece Ângelo Pereira, candidato do PSD a Oeiras, que esta tarde marca presença para “dar uma força” e lembrar, como dizem os cartazes: “Não basta concordar, é preciso votar”.

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Para cada interação Ventura guarda uma graçola (“Hoje no tribunal aquilo correu bem; eu já achava que ia preso, já ia pedir para me levarem tabaco”), um beijinho, uma fotografia, uma garantia de que vai ganhar com certeza, uma piada que aligeire até os ambientes mais tensos, mesmo que se fale de tudo menos de política.

Não tem maus encontros?, perguntamos. Sim, ainda há pouco teve, alguém lhe chamou racista quando atravessava a rua. Mas o que é certo é que, seja pelo Benfica ou pelos debates políticos em que lhe elogiam a prestação, Ventura se passeia pelas ruas de Loures sem ter de se apresentar a quem quer que seja – toda a gente já parece saber quem ele é, pelo que só lhe resta uma pergunta dirigida a quem quer que passe, sempre direta: “Vai votar em mim no dia 1?”.