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Lisboa tem mais 6000 lugares com parquímetro. Mas só é a pagar depois das eleições

Placa de parquímetro na Graça, em Lisboa, na terça-feira da semana passada, à vista de um mural de Obey Giant

alberto frias

Nuns casos, são parques a funcionar há meses, onde não é preciso meter moedas. Noutros, novos lugares marcados na via, com parquímetros tapados com plástico. Em ambas as situações, parece estar tudo pronto. Mas o pagamento do novo estacionamento tarifado em Lisboa não começará antes de 1 de outubro, garante a EMEL. A câmara não comenta

Paulo Paixão

Paulo Paixão

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Jornalista

Alberto Frias

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Fotojornalista

Na freguesia de São Vicente, em Lisboa, onde fica o bairro da Graça (sede e nome de freguesia até à recente reforma administrativa da capital), estacionar é uma dor de cabeça.

Num único minuto, junto ao balcão da padaria situada no número 90 da Rua da Senhora da Glória, duas situações ilustram bem o dia a dia de moradores e visitantes da zona.

Primeiro, é uma residente que vem avisar Tânia Gonçalves, um dos membros da família que explora o negócio, de que vai sair e por isso convida-a a ocupar o lugar que ficará vazio, pois Tânia deixara a sua viatura mal estacionada.

São vizinhas, aparentam conhecer-se. Muitos dias, antes da sete da manhã, quando chega ao estabelecimento para abrir a porta, é Tânia quem coloca no tabliê do seu carro um papel a dizer “Padaria”, para que o condutor cuja viatura fica trancada a possa chamar para ir desimpedir o caminho.

Mal acaba a conversa, é um visitante de ocasião do bairro que entra na padaria para pedir desculpa e permissão para ocupar por breves minutos o lugar de estacionamento reservado ao veículo comercial da empresa. O transeunte irá tratar um assunto rápido a uma clínica dentária que fica ao lado, e vê na ocupação do espaço reservado a terceiros a única forma de não ter de ir estacionar sabe-se lá onde.

Qualquer das situações é encarada por todos com bonomia e normalidade. É neste comércio informal do “eu saio para tu entrares” ou “deixo um bilhete a dizer onde estou” que se vão resolvendo alguns dos problemas de estacionamento do bairro da Graça.

Novos tempos à esquina

Agora as coisas vão mudar. Para pior ou para melhor, o tempo o dirá. Há opiniões para vários gostos, embora as maioritárias pareçam ser de clara aceitação do que aí vem. E o que aí vem está à vista a poucos metros da padaria da Rua da Senhora da Glória, para quem sobe a via em direção a Rua dos Sapadores. Passada a igreja, há novos lugares de estacionamento tarifado, que foram marcados em julho, afiança Tânia Gonçalves, já com parquímetro. Este fora colocado na véspera [o Expresso esteve no bairro na quarta-feira da semana passada], garante ainda a proprietária da padaria.

Como em outros pontos de Lisboa onde a EMEL expande a sua intervenção, o parquímetro da Rua da Senhora da Glória não está à vista, envolto que se encontra num plástico preto. Umas centenas de metros mais acima, no parque de estacionamento na Rua Natália Correia, passa-se o mesmo.

Talvez seja porque o manto que cobre o parquímetro adensa o mistério, os comentários locais estão dentro daquilo a que Tânia Gonçalves, em diálogo com a sua funcionária, Isabel Santos, chama os “boatos de bairro”. Estes versam o custo que terá o dístico de morador e a data em que os parquímetros serão colocados a descoberto.

Folheto da EMEL, que assinala a zona da Graça, na freguesia de São Vicente, com estacionamento ordenado (mancha azul mais escuro, delimitada a verde)

Folheto da EMEL, que assinala a zona da Graça, na freguesia de São Vicente, com estacionamento ordenado (mancha azul mais escuro, delimitada a verde)

Em toda a freguesia de São Vicente, são 918 os novos lugares sujeitos a parquímetro, mas cujo pagamento ainda não se iniciou, segundo da dados da EMEL, a empresa municipal que tem a cargo a mobilidade e o estacionamento na capital. Dividem-se entre parques de estacionamento (um deles, por exemplo, no cimo da Rua Damasceno Monteiro, está a funcionar desde o início de janeiro) e lugares marcados na via.

Ao lado, na freguesia da Penha de França, são 2.320 lugares de “estacionamento ordenado na via pública”, informa a EMEL. Na freguesia de Santa Clara são 501 num parque de estacionamento dissuasor. Em Alcântara, outro novo parque de estacionamento, para 202 viaturas, ainda segundo os dados fornecidos pela EMEL ao Expresso. Já no Areeiro, são 1.950. No total das cinco freguesias, são cerca de 6.000 lugares já com parquímetros (uns desde há meses, outros mais recentemente) ou em vias de ter a sua colocação concluída, mas sobre os quais se desconhece a data de entrada em funcionamento.

“Não há mais aberturas até à data das eleições”, respondeu a EMEL no final na semana passada, quando questionada pelo Expresso sobre o “calendário” da entrada em funcionamento dos novos parquímetros. Sobre o caso concreto da Rua da Senhora da Glória, “não há data prevista”, respondeu a EMEL.

EMEL e juntas de freguesia em sintonia

Na chegada do estacionamento pago a novas zonas, “a proteção do residente é o principal critério”, explica a EMEL. A empresa “atua por solicitação das juntas de freguesia e de acordo com claras necessidades geradas pela pressão do estacionamento”, prossegue a empresa.

Em contactos com dois presidentes de junta (um do PS, que governa a Câmara, e outro do PS, na oposição ao executivo municipal), a opinião afina pelo diapasão da EMEL.

Tanto Natalina Moura, do PS, que presidente a São Vicente, como Fernando Braancamp, do PSD, que lidera o Areeiro, veem com bons olhos o aumento dos lugares de estacionamento pago nas suas freguesias. Em ambos os casos, será uma forma de dar mais segurança aos moradores que lá vivem, que dotados do dístico de residente terão mais facilidade em ocupar os lugares que hoje muitas vezes escasseiam.

Braancamp conta até a história de como o aumento de “estacionamento ordenado” (eufemismo ou jargão técnico para o que a vox populi chama as “zonas de parquímetros”) já projetado para a sua freguesia vem corrigir uma situação algo caricata.

Sendo a Avenida Afonso Costa uma via estruturante do Areeiro, dá-se o caso de desde há uns quatro ou cinco anos, recorda o presidente da junta, apenas haver estacionamento pago de um dos lados. Tanto nas vias adjacentes (Barão Sabrosa, Abade Faria ou Bairro dos Atores) como na própria Avenida Afonso Costa. Como consequência, os condutores rumaram ao outro lado da Avenida, que se tornou um inferno para os moradores, que “às vezes nem conseguiam entrar nas suas garagens”, conta Fernando Braancamp.

A EMEL está no mesmo comprimento de onda: “O ordenamento em áreas confinantes aumenta naturalmente a pressão em bairros que anteriormente dispunham de espaço mais do que suficiente para responder ás necessidades dos seus fregueses”. Neste quadro, acrescenta a empresa, “geram-se novas necessidades que levam ao estudo, planeamento e intervenção disciplinadora da EMEL”.

Falta de consenso

O alastramento do estacionamento pago vem agora repor o equilíbrio (no Largo do Casal Vistoso e na Arantes de Oliveira, além do lado da Afonso Costa em que se podia estacionar). Por isso, por parte dos fregueses de Fernando Braancamp, “a medida é bem vista”. O mesmo sentimento é expresso por Natalina Moura: “Maioritariamente, os fregueses querem os parquímetros”.

O candidato da CDU à junta de São Vicente, Vítor Agostinho, tem uma visão contrária. Salientando que a colocação de parquímetros ”não é uma medida desajustada”, considera que a mesma deve ser integrada numa política mais vasta, que afaste carros da cidade, através de “parques de estacionamento dissuasores à entrada”, e garanta um “transporte público de qualidade”, para que as pessoas se sintam confortáveis quando deixam de lado a sua viatura. No caso da Graça, Agostinho defende que se deve avançar para a construção de silos automóveis.

Garantindo que “a maior parte das pessoas [da freguesia de São Vicente] não concorda” com os parquímetros, Vítor Agostinho contesta a data em que o estacionamento começará a ser pago. “A EMEL só vai colocar os parquímetros a funcionar depois de 1 de outubro para que o descontentamento não venha ao de cima”, afirma. “Tudo tem a ver com o processo eleitoral”, reforça.

A Câmara de Lisboa não respondeu se a data de entrada em funcionamento dos novos parquímetros tem alguma relação com o calendário eleitoral.

Já a EMEL, questionada se o timing em causa é da sua “inteira responsabilidade” ou “traduz uma orientação da Câmara”, fugiu à pergunta, respondendo: “O nosso interlocutor principal nesta fase é a junta de freguesia (...). O calendário que executamos é o dos processos já aprovados e com implementação no terreno. Não corresponde a decisões que tenham alterado o nosso plano de trabalho. Por acaso não aconteceu haver outra zona com o processo concluído para abertura”.

11 dísticos por lugar

Haverá algum eleitoralismo nas datas? “Não acredito nisso”, diz o social-democrata Fernando Braancamp. “São processos que estão a ser preparados há muito tempo. Nesse ponto, a junta e a câmara estão consonância”.

Se a medida avançasse agora é que poderia haver algum eleitoralismo, admite o autarca. Falando dos seus fregueses, o autarca do Areeiro diz que “há moradores a reclamar que querem sair de casa e não podem”.

Num ponto, Fernando Braancamp deixa contudo uma crítica à EMEL. Sem levar ainda em conta a nova oferta que irá diminuir o ratio, no Areeiro “há 11 automóveis com dístico por lugar tarifado. É como se a EMEL estivesse a vender um serviço que não pode prestar”.

Texto alterado às 12h45 de 26 de setembro, com a informação da EMEL que corrige os lugares com parquímetro na freguesia do Areeiro (rectificando em alta os fornecidos pelo presidente da junta, que mencionara apenas cerca de 500) e com os comentários da empresa municipal à alegada relação entre a entrada em funcionamento dos parquímetros e a data das eleições autárquicas.