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Autárquicas 2017

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Há 36 concelhos que nunca mudaram de partido. PSD ganha campeonato da fidelidade

Ilustração Tiago Pereira Santos

Há coisas que nunca mudam. Pelo menos em 36 municípios. A cor laranja está no top. E há casos em que o partido vencedor pode deitar tudo a perder, como Vila do Conde

Raquel Albuquerque

Raquel Albuquerque

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Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

infografia

Jornalista infográfica

Qual o segredo para o mesmo partido estar há 40 anos no poder? "A empatia com as pessoas", responde Mário Almeida, ex-autarca de Vila do Conde, que é um dos 36 municípios que nunca mudaram de mãos partidárias desde as primeiras eleições autárquicas em 1976.

Para além de Vila do Conde, contam-se outros nove concelhos que elegeram sempre autarcas socialistas: Alenquer, Campo Maior, Cartaxo, Gavião, Lourinhã, Olhão, Portimão, Reguengos de Monsaraz e Torres Vedras. Há ainda outros dois casos – o de Vizela e de Odivelas – que também se mantêm fiéis ao PS desde que 'nasceram', embora sejam concelhos recentes (foram criados em 1998).

Os dados mostram, contudo, que é o PSD quem lidera o campeonato da fidelidade. Em 15 concelhos o partido mais votado foi o PSD - incluindo-se nesta lista coligações com o CDS ou o PPM. Contam-se na lista os municípios de Ansião, Arcos de Valdevez, Boticas, Calheta, Câmara de Lobos, Ferreira do Zêzere, Mação, Oleiros, Oliveira de Azeméis, Oliveira de Frades, Penela, Ponta do Sol, Ribeira Brava, Santa Maria da Feira e Valpaços.

O PCP ocupa o segundo lugar do pódio: tem 11 concelhos fiéis desde 1976. Tendo em conta todos os presidentes eleitos pelas três coligações com que os comunistas apresentaram candidatos desde então – a FEPU (Frente Eleitoral Povo Unido), a APU (Aliança Povo Unido) e a CDU (PCP e Verdes) – destacam-se os concelhos de Almada, Arraiolos, Avis, Castro Verde, Moita, Montemor-o-Novo, Mora, Palmela, Santiago do Cacém, Seixal e Serpa.

Águas divididas e alerta laranja no mar de rosas socialista

Mas porquê o interesse especial em Vila do Conde? É que este exemplo de monogamia eleitoral passa por momentos mais agitados. E a culpa não é dos rivais que querem roubar o histórico PS, mas de um desentendimento interno que pode fazer o partido perder um dos seus bastiões.

Neste concelho, o PS sempre obteve maioria absoluta para a câmara, presidida ao longo de quatro décadas por apenas três pessoas: Fernando Gomes (entre 1974 e 1981), o “dinossauro político” Mário de Almeida durante 32 anos e, desde 2013, Elisa Ferraz.

A atual presidente da câmara, eleita com 46,7% dos votos, concorre como independente, sendo a timoneira do movimento NAU (Nós Avançamos Unidos), após se ter incompatibilizado com o partido. Após a cisão, o Partido Socialista escolheu, no início de junho, como candidato António Caetano, vice-presidente de câmara durante o último mandato e vereador desde 2002, que agora promete uma “Nova Vitalidade” para o município.

Apenas no dia 1 de outubro se saberá se esta divisão à esquerda poderá dar mais força à campanha eleitoral de Constantino Silva, atual líder da estrutura concelhia do PSD, apoiado também pelo CDS, sob a égide da coligação “Mais Vila do Conde”. São também candidatos Pedro Martins (CDU) e António Louro Miguel (BE).

“É o único município dos 18 que compõem o distrito do Porto onde o PS sempre ganhou com maioria absoluta”, começa por explicar, ouvido pelo Expresso, Mário de Almeida, dirigente máximo da comissão política da concelhia e histórico socialista, responsável pela presidência da câmara entre 1981 e 2013. Nas últimas eleições autárquicas a que se recandidatou, em 2009, venceu com 61,6% dos votos.

António Guterres quando era primeiro-ministro ao lado de Mário Almeida, então presidente da Câmara de Vila do Conde

António Guterres quando era primeiro-ministro ao lado de Mário Almeida, então presidente da Câmara de Vila do Conde

sérgio granadeiro

Em 1974, trocou a profissão como professor e assumiu as funções de vereador, na época com Fernando Gomes como presidente da autarquia. “Estava convencido de que só ficaria uns meses”, recorda, mas estava enganado. Em 1981, iniciou o longo percurso como principal responsável pelos desígnios da cidade. “Uma pessoa apaixona-se pelas coisas e dava-me prazer ver o município a crescer bem”, afirma o ex-autarca, de 73 anos, que, em tempos, diz ter recebido convites para integrar o Governo. A resposta, conta, foi sempre a mesma: “Nem pensar!”

Qual a base para obter a confiança dos eleitores durante 32 anos e fazer de Vila do Conde um porto seguro para o PS? “A empatia com as pessoas”, explica Mário de Almeida, o antigo autarca condecorado por Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva. “Não tenho dúvidas de que, se não houvesse a limitação de mandatos, eu ainda lá estaria nesta altura”, acredita.

Depois do divórcio político, joga-se xadrez em terra de marinheiros

Atualmente, os ventos políticos mudaram em Vila do Conde: Elisa Ferraz e o PS deixaram de remar para o mesmo lado, a partir do momento em que a atual presidente da câmara e vereadora de Mário de Almeida durante 16 anos decidiu levar avante uma candidatura independente. “Criou uma situação inédita, porque íamos para as eleições autárquicas com a certeza de que ganhávamos”, reconhece o ex-autarca, admitindo que o divórcio político “criou problemas”.

Elisa Ferraz é presidente da Câmara de Vila do Conde desde 2013

Elisa Ferraz é presidente da Câmara de Vila do Conde desde 2013

FOTO Lucília Monteiro

“Durante estes quatro anos, as coisas não correram tão bem como corriam sempre. Não houve uma gestão coletiva, como era tradicional. Houve sempre problemas entre a presidente e os vereadores eleitos pelo Partido Socialista, que não eram ouvidos”, acrescenta o dirigente da concelhia, que endereçou, ainda assim, o convite a Elisa Ferraz para ser candidata. “Já tinha tudo preparado para não ser candidata pelo PS, porque uma campanha eleitoral não se monta numa semana”, frisa Mário de Almeida.

Elisa Ferraz, em entrevista ao Expresso, confirma o convite, mas apresenta uma versão diferente. “Quando em março recebi o convite formal do presidente da concelhia do PS, disse que sim. O tempo foi passando e sobre esta matéria nunca mais ninguém me falou”, explica a autarca que, ao longo de quatro anos, afiança sempre ter pensado pela sua própria cabeça e que isso “não foi muito bem entendido” pelo Partido Socialista. No momento de apresentar a recandidatura, a postura determinada manteve-se, ao impor a condição de escolher toda a sua equipa. “Essas condições foram negadas e eu decidi apresentar-me como candidata independente”, acrescenta Elisa Ferraz.

“A partir do momento em que decidi avançar com esta candidatura, o xadrez político alterou-se. Abre-se um espaço novo e poderá haverá um reajustamento de todas as forças políticas”, considera a candidata pelo movimento “Nós Avançamos Unidos”. “Não temos de renegar o passado. Vila do Conde tem uma história ligada ao Partido Socialista e que não se pode negar, mas vivemos numa democracia, um espaço de pensamento onde cada um se pode apresentar com o seu projeto”, complementa a autarca, apostada em dar continuidade a uma política de proximidade com os cidadãos, consolidar a sustentabilidade orçamental, apostar na coesão social e territorial, piscando o olho ao turismo e à valorização da cultura.

“Se olharmos para o passado de Vila de Conde, esta é uma terra de marinheiros, de onde se partia para viagens, com as naus e caravelas que aqui eram construídas. É oportuno, neste momento, haver uma alternativa e uma possibilidade para um tempo novo”, reforça Elisa Ferraz.

Dar uma “Nova Vitalidade” – conjugando a experiência com a juventude – é o desígnio e o slogan da campanha de António Caetano, o candidato socialista e vice-presidente da autarquia durante o presente mandato. “Também reclamo um pouco para mim aquilo que tem sido o modelo de desenvolvimento que o Partido Socialista tem vindo a implementar no concelho, com uma crescente melhoria da qualidade de vida para as populações”, começa por dizer António Caetano. “Tenho afirmado que, caso seja eleito, o próximo mandato será muito orientado para as freguesias, porque na verdade importa combater algumas assimetrias que ainda existem”, nota o candidato, com o objetivo de qualificar o território, envolver os mais jovens na vida coletiva e atrair investimento para gerar “dinâmica de emprego”.

Democratizar, desenvolver e dinamizar: são estes os pilares da candidatura “3D” protagonizada por Constantino Silva, com os apoios de PSD e CDS. “Vila do Conde estagnou. O mandato de Elisa Ferraz e os anteriores foram muito pobres”, classifica o candidato, para quem “a democracia está doente” num município garante haver um clima de medo. “Pretendo eliminar todo esse rasto que vem do passado, de uma sociedade coagida”, diz Constantino Silva. “Não entendo como é que as pessoas querem estar tanto tempo na Câmara. Isto é serviço público. Quem der o litro durante quatro anos, já se vai fartar, não quer estar lá 30 ou 40”, sustenta o candidato que se assume como a “verdadeira alternativa”, acrescentando estar a concorrer, no fundo, contra “duas listas do PS que pouco diferem”. Dia 1 se verá.