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Autárquicas 2017

Bola ou eleições? A Democracia não pode ser isto

Ouço na rádio o porta-voz da Comissão Nacional de Eleições a aplaudir a intenção do Governo de proibir jogos de futebol em dias de eleições: “Gostava que tivesse havido mais dever cívico”, mas “se o bom senso não imperou, será pela via legislativa”. Agora pergunto eu: quem é que legisla quando a falta de bom senso parte do legislador?

Os deveres cívicos não deviam ser alvo de decreto, mas antes o reflexo de uma sociedade desenvolvida e educada. O esforço devia seguir esse caminho e não pela força da lei. Nos últimos anos, o fosso entre eleitores e eleitos acentuou-se e não consta que tenha sido por causa do futebol. O cartão vermelho dos eleitores acompanha a descredibilização da política e dos políticos.

Pergunto-me ainda em que se baseia o Governo para esta proibição. Mostrem-nos os dados que comprovam o impacto do futebol na abstenção. É que olhando para os números (ver aqui os resultados da abstenção), a abstenção cresce de forma galopante desde 1975 - nas últimas autárquicas foram 4 milhões e meio – e não consta que tenha sido por causa da bola. Aliás, se assim fosse, porque não proibir outros eventos públicos? Porque não vedar também as praias nos domingos eleitorais? Ou fechar os centros comerciais? Ou acordar com a Santa Sé que nesse dia não há missas?

Com esta intenção, o Governo mostra a pouco consideração que tem pelos eleitores. A nossa maturidade cívica fica amarfanhada. A democracia não se faz assim. Se calhar devíamos pensar que os eleitores fogem das urnas porque estão fartos de certos comportamentos. Já não acreditam. Odeio generalizações do tipo “eles são todos iguais!”, mas elas existem e não se combatem proibindo jogos de futebol.

Na Europa e no mundo não faltam bons exemplos de democracias amigas do eleitor. A solução para esta indiferença, que em todas as eleições atinge recordes, passa também por facilitar a vida ao eleitor. Há países com voto eletrónico ou com voto num dia da semana, ou até com um período alargado de votação. A discussão devia passar por aqui, mas, infelizmente, estamos concentrados no acessório. O Governo assim impôs. E, certamente, agradece.