16 de abril de 2014 às 23:53
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Austeridade a mais pode "repetir" o que se passou na Alemanha pré-nazi

Quem o diz é Ewald Nowotny, governador do Banco da Áustria e membro do conselho de governadores do BCE, que traça um paralelo com as políticas de austeridade na Alemanha no começo dos anos 30, ambiente  que facilitou a chegada ao poder de Adolfo Hitler.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

Surpreendentemente, um membro do conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE) alerta para os perigos de políticas de excessiva austeridade fazendo um paralelo histórico com o que se passou na Alemanha no princípio dos anos 1930, depois da eclosão da Grande Depressão nos Estados Unidos. A comparação foi feita por Ewald Nowotny, governador do Banco da Austria, o banco central, e membro do conselho de governadores do BCE, conta o jornal alemão Süddeutsche Zeitung.

Numa conferência, Nowotny recordou que as políticas de austeridade excessivas seguidas pelo então chanceler Heinrich Bruning, um especialista em finanças, na parte final da República de Weimar, produziram uma situação de crise profunda, desemprego em massa, e agravamento da situação política interna que criou as condições próximas para a subida do nazismo ao poder.

O filme desta degradação política durou pouco mais de dois anos, e recorda-se, a seguir, muito brevemente.

Em março de 1930, o presidente Paul von Hindenburg nomeou Bruning chanceler, mesmo sem maioria parlamentar de apoio, passando a governar por decretos de emergência, nomeadamente aplicando uma receita de austeridade extrema, no meio de uma Grande Depressão então global. Desemprego em massa criando franjas de miséria, empobrecimento da classe média com radicalização política de diversos segmentos, movimentos nos grandes grupos empresariais e financeiros e grande turbulência política levaram à queda de Bruning em maio de 1932.

A partir dessa altura sucederam-se vários governos e duas eleições legislativas nesse ano, em julho e novembro, em que o partido de Hitler se afirma como principal força política, com mais de 30% de votos. A 30 de janeiro de 1933, Hitler é nomeado chanceler.

Uma ideia muito divulgada atribui à situação de hiperinflação na República de Weimar a responsabilidade da muito posterior crise política dos anos 1930. Mas não é correta. O período de hiperinflação durou entre 1921 e 1924. Seguiu-se um período de crescimento até ao rebentar da Grande Depressão em 1929 conhecido como Goldene Zwanziger, os "Anos vinte dourados".

 

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HÁ AUSTERIDADE E AUSTERIDADE!
Uma coisa é austeridade natural de um país pobre mas que está em crescimento! Os seus habitantes nunca tiveram melhor, e assim tudo o que vier é optimo!
Outra coisa é decretar austeridade em países que já viveram razoávelmente, e que agora têm muita dificuldade em aceitar isso. Para os politicos é tudo fácil! EU QUERO, MANDO E POSSO!
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O primo do Euro
Falta só um pormenor nessa história. A Alemanha dos anos 30 estava inserida no padrão-ouro, ou seja, a sua moeda não flutuava livremente, nem podia ser desvalorizada, mantendo o mesmo valor face ao ouro. Pelo contrário, a Grã-Bretanha saiu do padrão-ouro logo no início da depressão, e é um facto que a sua economia não sofreu tanto. O senhor Bruning, pelo contrário, recusou-se a abandoná-lo. O padrão-ouro não vos lembra nada? Pois é, é isso mesmo. É primo direito do nosso euro!
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Aleluia!

Começava a pensar que era impossível contar a história tal como foi.
É incrível como uma mentira repetida as vezes suficientes se pode transformar em verdade , mesmo que esteja em causa a história recente e perfeitamente documentada.

Bem haja, Ewald Nowotny!
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Não tarda....

...aparecerão os devotos da laranjada e dos azulinhos-céu dizendo que o governador do Banco da Áustria é comuna, tentando reescrever a história.

JNRodrigues será acusado de fazer contra-informação.
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Desempregado
Em Portugal é tão dificil encontrar emprego como acertar na chave do Euromilhões.
Nazismos do nosso descontentamento...
A crise levou à ascensão do nazismo, como podia ter levado à ascensão do comunismo. De notar que logo a seguir ao crash de 29 o sistema económico socialista gozava de grande prestígio por não ter sido afectado. De lembrar também que os comunistas alemães apoiaram tacitamente o partido nazi, em detrimento dos sociais-democratas. Uma estratégia montada por Estaline através do Komintern para actuação do KPD. Este pensou que os nazis durariam pouco tempo no poder, abrindo assim caminho aos comunistas... mas enganou-se.

Deste texto fica a impressão que a crise nada ou pouco teve a ver com as condições a que esteve sujeita a Alemanha pela Paz de Versailles agravadas com a Grande Depressão, e que esta se ficou a dever apenas a políticas de austeridade impostas por "decretos de emergência"...
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É boa? Leia a História com atenção Ver comentário
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Eu digo o contrario...
Austeridade a mais deveria e tinha de dar numa revolução de cheiro bolchevista. Pelotões de fuzilamento p'ra os gajos que promoveram o novo código do trabalho, ou a inteira CIP, enfim, é só escolher...
História
Ou a minha memória está a falhar ou as grandes causadoras da tragédia nazi, foram as reparações de guerra exigidas pelos aliados, que deixaram a Alemanha de joelhos.
Ao fenómeno económico juntou-se a humilhação de ser miseravelmente explorado, especialmente pela França, que exigia comboios e comboios de carvão bem como quase toda a produção do Ruhr.
O fenómeno exclusivamente económico teve o seu máximo nos USA, que praticamente parou todo o país. Está bem documentado e julgo ser um "study case" para economistas.Um país paralisado, sem que tenha acontecido nenhuma catástrofe, só a falta de confiança chega para derrubar uma economia pujante. Vi, há pouco, um longo e excelente documentário sobre o assunto.......

Quanto às opiniões do banqueiro, nada de alarmismos e cada um ao seu : banqueiro à banca, políticos à política.....
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Caro Jorge Nascimento Rodrigues
Excelente artigo, embora curto. Já deu para perceber pelos vários comentários que é um assunto que dá para escrever muitos livros e dificilmente resumível em 3 ou 4 parágrafos, mas foi importante que chamasse a atenção para o facto de ter havido um período de crescimento entre a hiperinflação alemã e a crise de 29, e que só depois o partido Nazi começou a crescer e ganhar poder. Só este "pormenor" estraga um série de conversas de café.

Como muitos comentadores referiram, o tratado de Versalhes (quer a parte das reparações financeiras e materiais, como a questão do corredor de Danzig) é um dos pontos fulcrais no sentimento de injustiça e orgulho ferido. Mas não é o único. E não coloca em causa o seu artigo.

Os melhores cumprimentos,

António

oreivaivestido.blogspot.pt
Interessante
E bom de saber. Pode ser que o alerta nos ajude num futuro próximo.
Como é possível que....
... os actuais governantes europeus seja tão tcanhos e insensíveis a estas realidades como têm mostrado?

Claro que não é por ignorância.

Porque será?'

As diferenças e semelhanças...
Embora que me sinta tentado em apoiar cegamente o que Ewald Nowotny diz, tenho também de parar e pensar um pouco.

Dizer que austeridade a mais [actualmente] poderia levar a um novo "Hitler" (em menor ou maior escala e gravidade, depois é o que se veria) é o mesmo que dizer que a chacina de (cães e) gatos na Ucrãnia agora para o Euro poderiam levar a novo surto de peste negra.

Não digo que não seja um aviso sério, porque o é! Mas penso que seja exagerado, mas não peca por o ser. O meu maior medo com esta declaração é que haverá quem pegará nela e usará como propaganda para bipolarizar ainda mais a discussão, "matando" pelo meio as posições equilibradas de austeridade para equilíbrio das contas públicas mas com planos de crescimento em simultâneo, sobrando somente os lados mais polarizados dos pró-austeridade e anti-austeridade (e isso sim é dado provado vezes sem conta que extremar posições nunca é bom).

Garantidamente quando se mistura fazer algo que pode ser prejudicial a curto prazo (mesmo que possa ter um benefício maior no futuro ou prevenir um mal maior), com insensatez que se obtem posições extremadas. O exemplo da Grécia é bem vísivel nisso, partiu com as mesmas condições de Portugal, Irlanda e Islândia e no entanto seguiu um caminho completamente diferente e até já tem no parlamento um partido de extrema-direita. Mas nesta era estamos mais interdependentes do que nunca, com mecanismos economicos e sociais que servem de elemento de controle. Espero eu...
Ai sim??
E só agora se deram conta???
Exactamente
Os discursos nacionalistas de fechamento estão aí agora é só aparecerem lideres mais ou menos populistas com o discurso sistemático e serão seguidos pela multidão. Tudo isto é normal com o desemprego galopante as medidas de austeridade que esmagam principalmente a classe média não é de admirar Poderá até haver uma nova guerra. É pena que os políticos tenham sido tão incompetentes ao ponto de não vislumrarem sequer o que está à frente dos seus olhos. São os gestores e todos os ignorantes que pensam que a história (e as ciências sociais em geral com excepção da economia) não interessa. A história às vezes repete-se e o capitalismo financeiro já tinha dado provas de ser adverso para a maioria dos cidadãos na grande depressão do século XX
Re: Exactamente Ver comentário
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Re: Exactamente Ver comentário
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O senhor Ewald Nowotny
...só não disse o que se passou.
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