Aumentos? E produzir, não?
É uma das coisas mais desconcertantes em Portugal: a malta desliga o "aumento salarial" do "aumento da produtividade". O "aumento" é visto como um dado adquirido, seja qual for a produtividade.
I. Portugal não pode voltar a apostar no modelo ("cavaquista"?) dos baixos salários. Aliás, nós estamos a assistir ao colapso desse paradigma assente nos salários baixos, que, por isso, eram atractivos para as multinacionais-que-deslocalizavam-as-suas-fábricas-para-Portugal. Com os chineses e afins no mercado global, este paradigma português estava destinado ao colapso.
II. Para entrarmos num modelo de salários mais altos, a sociedade portuguesa precisa de arrumar as ideias. E essa arrumação pode começar por aqui: em Portugal, as pessoas ainda pensam que os patrões não aumentam os salários dos trabalhadores, porque não querem. Estou desconfiado que muita gente julga que o dinheiro sai de uma torneira mágica, que só não é aberta devido à maldade do patrão. Na base deste preconceito, está uma noção rudimentar da economia, bem criticada por Jorge Marrão e José Maria Brandão de Brito:
III. Só há um caminho para o aumento sustentado de salários: o aumento da produtividade. Os sindicatos e afins têm de compreender uma coisa simples: "os salários elevados significam principalmente elevadas produtividades". Os portugueses têm de "reconhecer e aceitar que os salários mais elevados vão para os sectores de mais elevada produtividade, e para os trabalhadores mais qualificados, mais flexíveis e mais comprometidos com a empresa e com a sua formação" . É assim tão difícil compreender isto? É assim tão difícil sair da lógica habitual do "patrão versus trabalhador"? É assim tão difícil compreender que um aumento salarial não pode ser um acto administrativo desligado da produtividade? Como dizia a minha avó, o dinheiro não cai da telha.


