23 de Julho de 2014
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Diário

Barrigas de aluguer: um bebé não é mercadoria

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A barriguita de aluguer é a próxima causa fracturante e, claro, passará no parlamento porque representa a "novidade" e o "progresso". E o "progresso" é sempre benéfico. Ninguém no seu perfeito juízo pode negar as qualidades do "progresso". Quando critica a novidade progressista, um sujeito só pode ser uma de duas coisas: ou é deficiente mental (tem incapacidades cognitivas que o impedem de ver a verdade) ou é reaccionário (o representante do mal na terra). Como toda a gente sabe, eu junto os dois defeitos e, por inerência, gostava de dizer que um filho não é mercadoria, não é uma propriedade para ser regida debaixo do código comercial. 

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Ubaldo: sexo, violência e literatura

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Além de acompanhar as suas crónicas no Globo, li e reli com gosto os romances "Casa dos Budas Ditosos" (1999) e "Sargento Getúlio" (1971). Getúlio é mesmo uma das minhas personagens favoritas. Não por acaso, a minha mulher, quando me deu a notícia, fez questão de dizer "morreu o teu Ubaldo". Sim, João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) era muito cá de casa, e esta relação começou com um livro que foi proibido duas vezes em cadeias de supermercados portugueses. Na última vez, em 2009, o grupo Auchan/Jumbo retirou o livro "Casa dos Budas Ditosos" das prateleiras, invocando que se tratava de uma obra pornográfica. Não vou entrar nessa discussão pudica. Sei apenas que Ubaldo mostrou que é possível fazer literatura com o sexo, o material mais avesso à arte da ficção (reler Henry Miller tem sido penoso). "Os Budas", como é conhecido cá em casa, é um monólogo de uma mulher madura e luxuriante, uma coroa ou milf, que vai recordando suas aventuras carnais, sobretudo as gozadas imperiais que conseguia ter em qualquer lugar e de qualquer jeito. O que é espantoso é o modo como Ubaldo consegue encarnar no corpo e na voz desta mulher. A maioria dos escritores cria personagens. Ubaldo era as personagens.

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Costa e Seguro: o veneno da democracia directa

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É confrangedor acompanhar o dia-a-dia político dos EUA. O clima é sempre eleitoralista e enervadiço, o que explica parte dos actuais bloqueios institucionais da América. Por que razão acontece isto? O frenesim eleitoralista (há sempre primárias em curso) cruzou-se com o frenesim nos média modernos. A máquina da espuma exige a espuma da política. Ou seja, os canais de notícias 24 sobre 24 horas e as redes sociais aceleraram o jogo político até ao absurdo, até ao ponto em que se tornou impossível qualquer tipo de discussão séria. A histeria eleitoralista secou tudo à sua volta, porque beneficiou a linguagem dos extremos e do ódio. Se não fosse a presença estabilizadora e desaceleradora do Supremo Tribunal, os EUA estariam em maus lençóis. Curiosamente, a política portuguesa está a importar o pior da política americana (as primárias), deixando de lado o melhor (a natureza do Supremo Tribunal).

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"Guerra dos Tronos" e a liberdade

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Todos os episódios de "Guerra dos Tronos" são pequenos tratados políticos e morais. Se eu fosse professor de filosofia, filosofia política ou teologia, iniciaria todas as aulas com excertos específicos da série. Por exemplo, uma aula sobre o conceito de liberdade teria como mote a última cena de Daenerys. Na cena em questão, Daenerys recebe em audiência um dos ex-escravos que andou a libertar ao longo das cidades orientais e esclavagistas. Para seu espanto, o ex-escravo explica-lhe que sente falta da escravatura. Sim, é isso: o ex-escravo quer voltar a ser escravo, quer voltar a trabalhar para os velhos donos. Daenerys, a libertadora, descobre que a liberdade pode ser um fardo para muitas pessoas, descobre que certos povos podem escolher livre e conscientemente o estatuto de escravos. Porquê? Porque não suportam o fardo da escolha.

 

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O eterno retorno da caderneta

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Tenho vizinhos novos com filhos na idade da garotice e das cadernetas do Mundial. Os putos estão a dar vida nova ao pátio das traseiras. Por estes dias, tenho aberto a janela da cozinha que dá para as traseiras, dando a entender que estou apenas a arrefecer o jantar da minha pequena. Uma óbvia mentira. O que eu quero é ouvir as conversas dos putos. Sim, sou a NSA do prédio, uma entidade alcoviteira que se dedica à cusquice geracional. Na verdade, não é bem cusquice, porque o cusco é aquele que coloca o seu delicado bedelho naquilo que não conhece, naquilo que lhe é estranho. E estes putos de 8 ou 10 anos não me são estranhos. Eu conheço aquelas conversas. São iguais às minhas conversas em 1990. Um chuta e finge que é o Gotze, tal como eu fingia que era Lothar Matthaus. O outro tenta defender e finge que é Neuer, tal como fingia que era Bodo Illgner, o guarda-redes que iniciou a maldição dos ingleses nos penáltis catorze anos antes de Ricardo. Esta repetição cíclica da vidinha dá-me um certo conforto. Os actores mudam, mas os papéis ficam.

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Os revolucionários chiques e o PS

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Em Maio 1974, António Barreto, acabadinho de chegar do exílio suíço, andava um pouco às aranhas na nova Lisboa política. Com alguma naturalidade, aproximou-se dos amigos do Movimento de Esquerda Socialista (MES), o Bloco de Esquerda da época. Ficou chocado com o radicalismo do primeiro congresso, mas ainda se sentou para falar com a cúpula desta agremiação. No dia seguinte ao tal congresso, Barreto almoçou com Sampaio e Nuno Brederode Santos no Hotel Flórida. Às tantas, Arnaldo Sampaio, pai de Jorge Sampaio, surgiu na mesa dos rapazes. Depois de alguma conversa de circunstância, o patriarca despediu-se com uma frase profética: "vou ao alfaiate mandar fazer dois fatos... enquanto é tempo". Esta estória sempre me pareceu uma boa metáfora da nossa esquerda, até porque a história do MES é idêntica à história do Bloco de Esquerda (BE).

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"Flash Boys", António Costa e o meu colchão

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Esqueçam Shylock e Gordon Gekko. Wall Street e afins tornaram-se incompreensíveis. O problema está na complexidade matemática e informática do chamado High Frequency Trading (HFT). O que é o HFT? É uma rede de algoritmos que pensa e executa as compras/vendas do mercado à velocidade de microsegundos. Em 2008, 25% das transacções dos EUA era feita em HFT; em 2012, a percentagem já era de 70% (40% na Europa). Ou seja, a máquina está a substituir o homem no centro das bolsas e dos mercados, uma novidade que abriu as portas a uma opacidade inconcebível. Para compreender certos produtos financeiros é preciso ter um doutoramento em matemática, é preciso ser um geek. Não por acaso, boa parte dos tais produtos tóxicos nasceu nesta opacidade que transforma o investidor num otário. 

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Ricardo Salgado fez ou não fez candonga financeira?

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A questão já passou a esfera técnica e institucional do Banco de Portugal e CMVM. Como cidadão e como contribuinte-que-mais-cedo-ou-mais-tarde-é-chamado-para-pagar-estas-brincadeiras, a minha questão neste momento é só uma: Ricardo Salgado cometeu ou não cometeu crimes de colarinho branco? Este é o único elefante que continua na sala, os outros já foram abatidos: Ricardo Salgado perdeu a idoneidade bancária, e o apelido Espírito Santo tornou-se radioactivo para qualquer actividade financeira. Agora temos de saber se Ricardo Salgado é ou não é um caso para a polícia e para o ministério público. Já sabemos que muitas coisas que envolvem o GES são imorais ou amorais, mas resta saber se há coisas ilegais no cabaz. 

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Iraque: a tortura que mudou a América

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Ao derrubar o ditador que unia três tribos, os EUA abriram as portas à redefinição do mapa do Iraque e do Médio Oriente. É isso que está a acontecer neste momento. Mas, já que estamos aqui, convém recordar outra coisa. Se a América mudou o Iraque, também é verdade que o Iraque mudou a América. No contexto da imprecisa "guerra ao terror", o Iraque foi palco de muitas mudanças na psique americana. Exemplos? Membros de uma Administração (Bush) desenvolveram posições ambíguas ou de legitimação da tortura. Basta pensar nos famosos documentos de Alberto Gonzales e John Yoo. Repare-se que não estamos a falar de memorandos obscuros escondidos num cofre da CIA. Estamos a falar do Procurador Geral e Procurador adjunto da época. "As técnicas de interrogação reforçadas" (sempre a novilíngua) eram legítimas, diziam eles, porque existia um estado de emergência que exigia concessões no estado de direito e nas próprias leis da guerra.

 

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PS: à sexta, esta crónica procura ser a "Janela Indiscreta", rubrica que tenta ver as coisas através de um filme, série, livro ou disco.   

Pacheco Pereira e Filomena Mónica cortariam os pulsos na Alemanha

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O Mundial de 2006 teve como palco a Alemanha, e o Altíssimo teve a bondade de me colocar em Munique durante esse verão. Um santo verão, diga-se. Entre outras coisas mais ou menos inconfessáveis, tive tempo para compreender a estranha relação entre os alemães e a sua selecção de futebol, a Nationalmannschaft. Uma relação que mostra como o futebol não é só futebol. Muitos intelectuais portugueses, como Pacheco Pereira e Filomena Mónica, têm o hábito de xingar a fixação dos portugueses com a selecção e, no final do dia, acabam por legitimar o cliché que associa paixão futebolística e atraso. Ora, o que eles não sabem é que a obsessão futeboleira da ultra-sofisticada sociedade alemã é muito superior ao gostinho português pelo futebol. Nós somos uns moleques junto do fanatismo germânico. Lembram-se da conversa das bandeiras na varanda? Em 2004, eu vi muitos elitistas portugueses com vergonha do fenómeno. Em 2006, na Alemanha, vi generais, diplomatas e professores a entrarem na loucura da bandeira, sem problemas, sem peneiras, com um amor absurdo pela selecção.

 

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Edição Diária 17.Abr.2014

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