25 de maio de 2013 às 2:33
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Euro 2012

"Até no futebol eles nos atropelam"

O Expresso foi ver o jogo da Alemanha contra Grécia, o mais político de todo o Euro 2012, a uma taverna típica em Atenas.  Clique para visitar o dossiê Euro 2012

João Dias, em Atenas (www.expresso.pt)
Os gregos olharam para este jogo com o coração John Kolesidis Os gregos olharam para este jogo com o coração

"Para entender a Grécia é preciso ir a uma taverna - a Grécia acontece aqui, não é nas cafetarias aonde os jovens todos vão", garante Nikos, advogado grego de 50 e poucos anos e 70 e muitos centímetros de barriga.

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Grande parte do argumento de Nikos passa pela decoração desta taverna de 30 anos, no bairro de Exharcheia, em Atenas. Esta taverna, tal como tantas outras espalhadas pela Grécia, recusou-se a alinhar na modernização trazida pela entrada na União Europeia, pelo crédito fácil e pelos ares do ocidente. As tabernas mantiveram-se gregas. Esta, onde Nikos encontra os seus amigos todas as noites, tem pouco mais do que um espelho e um relógio nas paredes brancas.. As mesas são de ferro e têm-se mantido inquebráveis ao longo de 30 anos, apesar dos murros que têm levado em tudo o que é evento desportivo assistido aqui. O único sinal de modernidade nesta taverna é a televisão: um plasma da Sony, metido a um canto, ao lado da janela.

Não tivesse a Grécia eleito um novo governo no passado domingo e o jogo para os quartos-de-final do Euro 2012 entre a Grécia e a Alemanha teria sido o único tema de conversa desta semana. Os gregos olharam este jogo com o coração, a razão ficou de lado. Isso pode ser visto na casa de apostas mesmo em frente à taverna: 80% das pessoas que apostaram neste jogo, apostaram numa vitória grega. O retorno seria de 9 vezes o valor da aposta no caso de uma vitória grega, e apenas 1.3 vezes no caso de uma vitória germânica.

A imprensa agarrou esta onda. O jornal grego Sport Day tinha na manchete um pedido aos jogadores gregos: "Levem os alemães à falência!". Até o jornal Kathimerini, um diário de referência e de grande tiragem dizia que "quem achar que o jogo de hoje é só um jogo está errado". "Para muitos gregos, uma vitória sobre os alemães representaria o triunfo dos pobres sobre a riqueza, a arrogância e o imponência dos poderosos", continua o Kathimerini.

Nikos concorda, mas vira-se pouco contra a Alemanha. "Nós não estamos tão chateados com a Alemanha como estamos com os nossos políticos", diz, com um copo de ouzo, uma espécie de aguardente grega servida com gelo, na mão direita. "E digo já uma coisa: se este governo do Samaras deixar tudo na mesma, eles não duram tempo nenhum, há logo eleições e o Syriza tem logo 60% dos votos", garante.

Rola a bola em Gdansk e de repente a taverna cala-se e olha para o plasma cinzento da Sony. A televisão mostra a chanceler alemã, Angela Merkel, a falar com o presidente da UEFA, o francês Michel Platini, e Vassilis, sentao ao lado de Nikos, lança a piada: "Oh, lá está ela, também lhe deve estar a pedir impostos!". Quando ainda se riem da piada, Schurrle faz uma recarga após defesa incompleta do guarda-redes grego e marca golo aps 3 minutos - mas é em fora-de-jogo, por isso os gregos respiram de alívio e bebem um pouco mais de ouzo.

O jogo está aborrecido e Nikos aproveita para falar de política: "Eu acho que a Europa não tem noção do que se está a passar na Grécia. Por exemplo, a minha mãe, que recebe uma pensão miserável e antes da crise não pagava impostos, agora paga €1200 de impostos por ano. Se não fosse eu e a minha irmã a ajudá-la, ela ainda ia viver para rua", queixa-se, de voz embargada.

Talvez por já estarem habituados a desilusões, quando aos 39 minutos Lahm, o capitão da selecção germânica, chuta de fora área e marca o primeiro golo do jogo, ninguém se manifesta. Chega o intervalo, que dá tempo de sobra para fumar uns cigarros lá fora e pedir mais um ouzo, mesmo a tempo do início da segunda-parte.

A Grécia joga mais solta, perde o medo e parte depressa para o contra-ataque. Já cheira a golo quase tanto como cheira a tabaco na taverna, e Samaras confirma: marca em contra-ataque após um cruzamento de Salpingidis da direita. Samaras só teve de encostar. Para que não haja confusões: é de Giorgios Samaras que se trata, o número 7 da seleção grega. O outro Samaras, Antonis Samaras, ganhou as eleições no domingo, fez ontem o juramento que o tornou o 185º primeiro-ministro da Grécia e quer renegociar o memorando da troika na cimeira europeia de 28 e 29 de junho.

Mas o momento dos gregos no jogo dura pouco - embora um pouco mais do que o estado de graça do novo governo, que nem o deverá ter - e o alemão Khedira chuta com tudo para a baliza grega aos 61 minutos, sem defesa possível para Sifakis, o guarda-redes helénico. Merkel aparece a festejar nas bancadas e na taverna só se ouve "ooooh...". Aos 67 minutos marca Klose e aos 73 é a vez de Reus, e os gregos já não querem saber. Serve de consolo um penálti a favor dos gregos, convertido exemplarmente por Salpingidis. O resultado já não passa dos 4-2 para a Alemanha.

O jogo acaba e Nikos faz uma inconfidência: "Eu apostei em Portugal para ganhar o Euro. Se vocês ganharem, até champanhe temos aqui na taverna".

 

Comentários 9 Comentar
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o jogo foi igual a realidade dos dois países
De um lado tivemos uma alemanha que trabalhou, esforcou-se e sempre procurou o golo. e após muito trabalho conseguiu o primeiro golo. Os gregos foram iguais a si mesmos. reclamaram por tudo e por nada, sempre a defender, e sempre com o mínimo esforço. e mesmo assim conseguiram empatar. mas os alemães continuaram a trabalhar, e os golos apareceram. Foi um jogo lindo não pela qualidade do futebol mas porque espelhou verdadeiramente a realidade dos dois países. os gregos que numa deveriam ter passado aos quartos de final mostraram que são caloes, preguicosos e procuram sempre arranjar desculpas para os seus problemas quando eles são 100% culpados... pela derrota de ontem :)
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Não admira que estejam mal!
O que se passou ontem no campo é o mesmo que se passa no país. Até fazia impressão a atitude dos gregos.
Devo ter visto outro jogo
diferente dos comentadores e jornalistas...só pode!

Eu vi uma equipa a jogar como há 30 anos, em 2 dos 3 terços do campo, no outro terço não jogou, mas fechou-se enquanto os jogadores tiveram pernas (os de branco devem ter corrido mais 30% que os de azul). As trocas de bola foram sempre as mesmas, sem criatividade, básicas e eficazes, tão eficazes que 4 titulares ficaram no banco.
A outra equipa só jogou num dos terços, mudou de sistema porque foi obrigada e fechou as alas, ficou sem o centro - erro do camango, no boxe e no ténis é igual - só saiu em contra-ataque e quando teve oportunidade concretizou, logo, também elas eficaz, embora não eficiente.

Já na bancada o jogo foi outro, Platini a ver a Europa a jogar contra a Grécia e a Grécia a jogar contra a Europa. Triste engano de muitos, pois a única equipa verdadeiramente europeia - mesmo com jogadores oriundos de 3 continentes - é Portugal...e com uma vantagem, não precisa de guarda-redes, tem Pepe.
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