18 de junho de 2013 às 1:12
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As Páginas Arrancadas

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

A morte de um amigo, ocorrida agora na lógica dos factos, obriga-nos a rever a integridade de um diálogo de anos, e a dele retirar a linha de palavras que o resuma. Luiz Francisco Rebello saiu da cena visível para inculcar a memória do humanista que não separa o trabalho e os dias do ritmo da função respiratória. Assim preencheu ele uma espécie em vias de desaparecimento, a do viajante que se recusa a circunscrever a errância à palração de congresso, desenvolvida atrás de uma mesa de saias, encimada pelo farfalhudo enredo floral. Neste sentido recortar-se-á Luiz Francisco Rebello na nossa lembrança como testemunha saudavelmente europeia, da estirpe de outras excepcionais, e da mesma geração, um Jorge de Sena, ou um David Mourão-Ferreira, por exemplo.

Há pouco ainda, e despedindo-se de quem assina esta crónica, exprimia Luiz Francisco Rebello o temor de não conseguir levar a bom termo a tarefa literária que trazia entre mãos, denunciando-se portanto da condição daquelas que, conscientes da precariedade de qualquer gesto, abrem todavia pela escrita uma vereda salvífica, e não raro a única em que profundamente acreditam. E a autenticidade com que assumia o seu ofício manifestava-se na discrição com que só de passagem a ele se referia, preferindo a isso, e ao contrário dos medíocres que nos massacram com os seus projectos em curso, a inteligente contemplação da obra alheia. Tratava-se afinal de um estilo de vida, o dos que constroem civilização, indiferentes ao histérico desnorte de quantos se limitam a abastecer-se dela.

Conhecendo como ninguém o mundo dos direitos de autor, e batendo-se galhardamente pelo seu respeito, sempre os veria Luiz Francisco Rebello como mera extensão dos valores fundamentais que antes de Abril defendera com suprema coragem. Mas não se ficaria por essa agenda, ao operar o milagre de simultaneamente oferecer à história do teatro português o fruto da pesquisa do escrupuloso académico, e o contributo do talento do grande dramaturgo.

Daí que não signifique esta ausência, se quisermos prosseguir na sensatez de aproveitar o que mais conta, uma perda inconsolável. O homem que nos deu As Páginas Arrancadas, e pugnou por um teatro moderno e interventor, capaz de robustecer os ânimos, e de apontar caminhos, legou-nos um compêndio de lições a que na verdade não falha folha alguma.

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