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Testemunho

As lições de Bobina

Como uma cadela aprendeu as regras de comportamento e convivência e, em troca, ensinou à dona que a felicidade reside em gestos tão pequenos como a alegria genuína de um cão ao ver o dono chegar a casa. Todos os dias.
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A cadela Bobina aprendeu regras de comportamento

Nos primeiros tempos da Bobina cá em casa não houve dia em que não chegasse à noite com a sensação de que os meus dias se resumiam a ralhar e a discutir: "não faças isto", "não comas aquilo", "sai do sofá"... dias a fio em que esgotei a palavra "NÃO!".

Vivi esse tempo com a sensação de que ter um cão se resumia a resolver problemas novos, todos os dias. O momento de viragem na minha cabeça deu-se no dia em que os vizinhos do lado se queixaram da Bobina ladrar muito. Quando atacaram a Bobina, eu saltei para a defender, sem pensar.

Tal como no dia em que, um ano mais tarde, aquele cão gigante deu uma dentada na coxa da Bobina. Naquele momento percebi que o meu papel era defendê-la e que a minha liberdade estava condicionada. Aquela cadela não precisava apenas de um tecto. Tomei uma decisão: ia educar a Bobina e adoptá-la para o que desse e viesse. Primeiro passo: pedir conselhos a quem percebesse do assunto, porque na altura sabia tanto de cães como (continuo a saber) de futebol.

Dadas as primeiras instruções, tinha na mão tudo o que precisava para me entreter no ano seguinte. Nos meses que se seguiram, a minha vida deu uma volta de 180 graus. Passei a ir directa do trabalho para casa. Deixei as tardes na esplanada com os amigos, deixei de sair à noite, deixei de passar fins-de-semana fora. Eu estava focada numa missão que exigiu 300 por cento da minha atenção e da minha disponibilidade.

O que a Bobina aprendeu


E assim fiz: ensinei a Bobina a não ladrar quando saio de casa. Ensinei-lhe que a dona vai trabalhar, mas que volta sempre. Ensinei-lhe que o xixi e o cocó se fazem lá fora. Ensinei-a a sentar e a estar quieta. Ensinei-a quando são horas de correr e quando é altura de voltar para a dona. Ensinei-a a dar beijinhos. Ensinei-a a viajar de carro. Ensinei-a a dormir na cama dela. Ensinei-a a deixar-me tratar dela quando está doente. E muito mais. Ela aprendeu tudo.

A mim, a Bobina ensinou-me que, na vida, tudo passaria a ser mais fácil se aprendesse que a felicidade reside em gestos tão pequenos, como a alegria genuína de um cão ao ver o dono chegar a casa. Todos os dias. Agora, quase dois anos depois, a minha vida voltou ao normal.

A Bobina já faz parte da família e está feita a cadela mais sociável, mais querida e mais simpática do mundo. E eu sinto um orgulho sem fim em ter contribuído para isso. Foi com essa ternura imensa que me conquistou e que conseguiu fazer com que eu deixasse de me sentir independente, pela primeira vez na vida.

Porque, correndo o risco de parecer egoísta, com a Bobina sinto que, também pela primeira vez, passei a ter algo realmente meu. Nas primeiras férias em que me separei dela, chorei todo o caminho no regresso a casa. Passei os primeiros dias com o coração apertado. No dia em que a fui buscar e me deparei com a festa que me fez à chegada, percebi que metade da minha independência tinha ido à vida. A outra metade, vai-se desvanecendo diariamente.

A Bobina está sempre presente. Já pode ir a casa da minha mãe e dos meus avós. Para a Avó Glória, a Bobina é a Princesa ou a Fofinha. Diz que "Bobina, não é um nome suficientemente querido para ela". Deixa saudades por onde passa.

O que eu digo hoje a quem me demonstra vontade ou receio de ter um cão, é que há duas coisas essenciais no meio disto tudo: é preciso ter tempo para o cão. E, mais do que um quintal, o cão precisa é do dono por perto, o mais possível. O resto, vai com o tempo.

Foi assim que a Bobina conquistou o espaço dela cá em casa, para estar neste momento a dormir, no sofá, ao meu lado.

Acompanhe as aventuras da Bobina em 

http://apensarmorreumburro.blogspot.com


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Edição Diária 17.Abr.2014

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